A des-figuração do humano e a figuração do mal, no contexto da guerra

Há mais de cem dias, o mundo acompanha, pelos media, o horror da guerra na Ucrânia. Parece, mas, absurdamente, não é um cenário de filme de guerra: destruição, dor, morte, abuso, violência, fuga, fome, doença, massacre e tantas outras atrocidades que podem acontecer em um país e na vida das pessoas. Ou seja, “é um massacre sem sentido, no qual estragos e atrocidades se repetem todos os dias, afirmou o Papa Francisco.

A decisão horrenda e atroz de invadir um país, uma nação, seja por qual motivo for – domínio, poder, economia, política –, e submeter o ser humano a uma realidade de violência e desumanização é repugnante, perversa e inaceitável, em qualquer cenário político. É importante lembrar que a guerra também está ocorrendo em aproximadamente dezassete países no mundo, porém os holofotes mediáticos se voltaram apenas para a Ucrânia. No território onde há guerras, também há massacres, há vidas de inocentes ceifadas.

O tema da guerra foi e é pensado ao longo da história por distintos autores. Carl Von Clausewitz, no tratado Sobre a Guerra (Vom Kriege), define a guerra como “um ato de violência destinado a forçar o adversário a submeter-se à nossa vontade”, e o seu constitutivo em uma tríade: a violência, o ódio e a animosidade. A célebre definição clausewitziana de que “A guerra é a continuação da política por outros meios” faz pensar que os meios pelos quais se fazem guerra, infelizmente, justificam um exercício violento do poder político de uma nação sobre outra. Carl Schmitt, em O conceito do político, trata de um operador da guerra: a eleição de um inimigo a ser eliminado.

Podemos até ter a ilusão de que a instrumentalização da violência é uma ação necessária para mudar ou conquistar alguma realidade para o melhor. Contudo, não será para o bem. Hannah Arendt já nos alerta que “a prática da violência, como toda ação, muda o mundo, mas a mudança mais provável é para um mundo mais violento”.

A banalização do mal

Outro operador da guerra é o conceito de banalização do mal, desenvolvido por Arendt.  “o mal nos é apresentado em personagens relativamente medíocres, que nesse sentido são ‘banais’: são meros burocratas delinquentes, como afirma o teólogo Karl-Josef Kuschel; enfim, é o mal se apresentando por detrás da máscara de “pessoa do bem” ou da guerra em vista de um “bem”. A banalização do mal significa a execução não questionada de um comando que vem de cima para baixo. Burocratas são aqueles que servem às formas violentas de poder, sem questioná-las, sem assumir as responsabilidades, porque só são executores. E, nesse sentido, só se faz guerra com um aparato burocrático, que banaliza a vida, à medida que não se tem responsabilidade.

Na teologia clássica, Santo Agostinho conceituava o mal como ausência do bem, isto é, aquilo que não tem substância própria. Porém, com as experiências do século XX que atentam contra a humanidade, Kuschel sinaliza para o retorno da questão teológica e antropológica: “questão da teodiceia: como pode o bom Deus Criador permitir o mal? E a antropodiceia: como é que as boas criaturas de Deus podem perpetrar crimes como esses?”

Kuschel, ainda, apresenta-nos algumas questões para refletirmos: “desde os tempos de Jó, a teologia enfrenta a questão de duas faces: primeiro, como conciliar a existência do mal com a fé numa Criação boa e num Criador justo? Segundo, o que há no ser humano que o capacita a sempre voltar a cometer crimes de lesa-humanidade?”.

Se, nas religiões, o mal é um problema teológico insolúvel, a guerra é uma expressão política e social do mistério do mal, cuja finalidade é a morte, a aniquilação da existência humana. Pensar a guerra à luz do mal é voltar o nosso olhar para o ser humano, como coautor e vítima de maldade. Coautor, por causa do mau uso do livre-arbítrio. Vítima, porque o mal praticado o desfigura como pessoa. Então, vale a pergunta: como o ser humano se “configura” e “des-configura”, no contexto de guerra?

Primeiro vale considerar o quão paradoxal é, pois, de um lado, temos a pessoa enquanto promotora da paz, e, do outro, é aquela que também promove a guerra. Aqui podem-se conceber duas situações: a primeira, o humano “des-figurado” da sua dignidade divina e humana; e a segunda, a “figuração” do mal personificada na ação humana.

Na narrativa bíblica da criação, em Génesis 1,26-27, “Deus disse: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança… E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou.” Ela revela que a dignidade humana se encontra também no pertencimento e na semelhança ao seu Criador, pois o homem e a mulher foram feitos à imagem e semelhança de Deus. Ora, a pessoa carrega na essência do seu ser o humano e o divino, ou seja, traz em si a divindade do Criador. O humano, mesmo com a fragilidade ou limitação da própria condição, possui uma característica que transcende a realidade.

No contexto de guerra, a centralidade, a defesa e a promoção da vida humana são desconsideradas, banalizadas, no sentido de mascaramento de bem, e, por vezes, eliminadas do objetivo maior. O maior bem é o ser humano, é a pessoa. A dor, a fome, o sofrimento, o ser forçado a deixar sua casa, terra, cultura, país, separar-se da família, ser violentado e abusado na sua humanidade e dignidade significam que o humano está “desfigurado” em sua realidade original, naquilo que ele é em si.

Em Isaías 52,14, na passagem do servo sofredor, diz-se: “tão desfigurado estava o seu aspecto como homem, nem parecia ser humano.” É essa condição que o ambiente da guerra impõe ao ser humano. Nem parece mais humano. Perdeu tudo. Perdeu toda a sua dignidade: a vida e o sentido. Ficamos estarrecidos ao olhar o rosto das crianças, dos idosos e das famílias transpassados pela dor e pelo sofrimento, e, com isso, estamos diante da “des-figuração” do humano e do divino. Pessoas fugindo do país, outras se escondendo nos porões ou nos destroços, nas ruínas da guerra, em busca angustiante de salvar a própria vida. Estamos diante do humano que sofre dolorosamente, com pavor e angústia, no horto das Oliveiras da guerra. Jesus também sofre nos rostos dos corpos atingidos pelos ataques bélicos. Encontramos nos refugiados e migrantes, que fogem das bombas, o Cristo “des-figurado” e crucificado.

Num um discurso, no estádio de Moscovo, o presidente da Rússia justificou a invasão à Ucrânia, parafraseando o texto de João 15,13: “não existe amor maior do que dar a própria vida pelos verdadeiros amigos”. Mas, a realidade da guerra mostra-nos totalmente o contrário: desamor, atentado contra a vida, o outro é inimigo e que precisa ser derrotado, combatido, o desejo de dominar e controlar um povo. Enfim, é mais um que usa a bíblia para tentar justificar o injustificável, além de deturpar o real sentido bíblico. O dar a vida no sentido evangélico está em prol da vida e do bem maior, e jamais a favor da morte, da divisão, do sofrimento e da violência. É uma atitude nobre, de entrega a uma causa e um projeto maior que busca a salvação do outro, que tenta restabelecer ou devolver a dignidade do próximo. Isso é amor. É doar a própria vida para salvar o irmão, o amigo.

A figuração do mal

O outro aspecto que podemos relacionar é a “figuração” do mal sob a ação humana. A etimologia da palavra diabo (diabollos), tradução grega da palavra hebraica Satã, significa o que separa, nega, opõe-se, acusa, aquele que engana. O teólogo Joseph Ratzinger já dizia que o diabo é a negação da pessoa, é a despersonalização, é o mal que deixa a pessoa sem identidade humana, sem rosto. Quando a ação da pessoa se direciona para a divisão, a discórdia, a mentira, a opressão, a desintegração, estamos diante do diabo, do mal personificado na ação de pessoas. Portanto, o facto de aquela figura do nosso imaginário, do demónio de chifre, horrendo, príncipe do inferno, está presente no mundo da guerra, transvertido de outra forma, concretizado a partir da ação do homem ou da mulher que atenta contra a vida, divide, desintegra o outro, oprime, mata e transforma a vida do humano em um inferno.

Existe um inferno maior do que o contexto da guerra, no qual crianças, mulheres, idosos, famílias passam pelos piores sofrimentos experimentados na vida e pelas piores dores que possam sentir? Pode até existir, contudo, na nossa realidade humana actual, este é o maior.

Alberto Caieiro, pseudónimo de Fernando Pessoa, adverte-nos para a transformação que a guerra opera: “A guerra, como tudo humano, quer alterar. Mas a guerra, mais do que tudo, quer alterar e alterar muito. E alterar depressa. Mas a guerra inflige a morte.”

A guerra altera a vida, a rotina, a cultura, os sonhos, os projetos, o bem viver e o bem-estar, o emocional, o psicológico de uma pessoa, e, por consequência, de um povo. É uma vida aterrorizante, pois, como diz o poeta ucraniano Serhiv Zhadan: “nunca mais veremos rostos familiares. Somos refugiados. Vamos correr a noite toda.”

É, nesse contexto de guerra, que o humano é “des-figurado”, porque encontramos duas realidades como consequência de uma ação que marcará eternamente a vida humana e a história de um povo, de uma nação.

Percorremos um caminho em que a guerra foi abordada e conceituada por algumas personalidades intelectuais importantes. Passamos pelo retorno de questões, as quais a Teologia é desafiada a repensar, a partir da experiência do século XX, até o momento atual, e olhar o humano na perspectiva existencial, olhando para o jogo da palavra “des-figuração” do humano e “figuração” do mal. Queremos finalizar desafiando vocês, leitor e leitora, a se interrogarem: o que a guerra lhe faz pensar? Qual é o seu olhar para o ser humano?

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Por Paulo Leandro Nogueira dos Santos dos Santos – graduado em Filosofia, Teologia e Pós em Juventude no Mundo Contemporâneo. É professor de Filosofia e Ensino Religioso, e coordenador da Pastoral Escolar no Colégio Murialdo em Porto Alegre, no Brasil -In Domtotal.

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