O CDS que foi e o que vem aí

O CDS atravessa hoje uma crise profunda. Não se trata de uma crise conjuntural, que se possa atribuir a um só presidente ou que se resolva simplesmente com uma mudança de direcção. Como, aliás, o resultado do último congresso veio provar: apesar da mudança de protagonistas no partido, e independentemente da avaliação que se faça da actual direcção, a verdade é que o partido está hoje, como há dois anos, numa situação muito frágil.
O problema do partido não é se o presidente é A ou B, ou quem está ou deixa de estar na direcção, o problema é mais profundo. Por isso, mais do que discutir protagonistas, é preciso repensar sem medo a trajectória política do CDS.
No regime democrático saído do 25 de Abril, o CDS afirmou-se como o partido doutrinário da Direita. E foi assim que construiu a sua força, com uma identidade clara, distinguindo-se do PSD, que procurou ser um partido abrangente e de poder. A utilidade do CDS sempre residiu na coragem e firmeza com que afirmou a sua identidade.
O auge da força do CDS coincidiu precisamente com a o auge da sua clareza doutrinária, com Freitas do Amaral e Adelino Amaro da Costa. O liberalismo de Lucas Pires, que se afirmou precisamente em divergência com o personalismo de Adelino Amaro da Costa, deu início a uma decadência de eleitores que haveria de atingir o seu mínimo já no consulado de Adriano Moreira. Após breve interregno do fundador Freitas do Amaral, o partido recomeça a recuperar, primeiro com Manuel Monteiro e depois com Paulo Portas, quando há o esforço de regressar à identidade original do CDS. Não será por acaso que os melhores resultados do CDS no século XXI são nas eleições após o referendo ao Aborto, onde o CDS, então liderado por José Ribeiro e Castro, se afirmou com clareza como único partido que defendia a Vida por nascer.
Durante o segundo consulado de Paulo Portas, o CDS tornou-se muito dependente do carisma do seu líder. Se isso teve sucesso evidente e reconhecido, a longo prazo acabou por enfraquecer o partido. Se a presidência de Portas permitiu a ascensão de novos quadros com muito valor, também levou a um esvaziamento da identidade do CDS. Com a sua saída da presidência o partido começou uma tendência de queda que ainda não foi invertida.
É difícil identificar o momento em que a actual crise do CDS se iniciou. Mas as Europeias de 2019 e as legislativas que se seguiram apenas vieram pôr a nu um problema que a coligação Portugal à Frente em 2015 e o brilhante resultado de Lisboa em 2017 tinham conseguido camuflar.
Muitas vezes, nos últimos anos, temos ouvido dizer que o CDS tem três pilares: liberal – conservador – democrata-cristão. E que só cresceu quando soube integrar e conjugar esses três pilares. Contudo os factos desmentem esta afirmação. O CDS cresce quando afirma com clareza a sua identidade democrata-cristã, e diminui sempre que dilui essa identidade.
Não quer isto dizer que não haja espaço dentro do partido para conservadores e liberais. É normal, dadas as afinidades entre estas correntes de pensamento, que estes se identifiquem com o CDS e que o CDS seja a sua casa. E dentro da própria democracia-cristã há os que são mais conservadores e os que são mais liberais.
Mas o que aconteceu, e enfraqueceu o partido, foi que, na esperança de crescer e atrair novos eleitores, a democracia-cristã, identidade fundadora do CDS, se foi diluindo, reduzindo-se apenas a mais um pilar. O resultado está à vista: não atraímos novos eleitores e perdemos os antigos.
Por João Seabra Duque
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