Falemos de malandragem…

Porque ainda há malandros, mas diferentes dos de antigamente. E quem fala de malandragem, fala em heróis, ou em anti-heróis. Afinal o que é um herói?
Seja aquilo que for, será sempre alguém que não se humilhou à situação que lhe estava predestinada. Fez boas e más acções, mas ganhou a simpatia de muita gente, mais ainda quando tiravam aos ricos para dar aos pobres. Sempre solidários na luta contra a ordem estabelecida. O pior é que esta conversa vem a propósito de já não existirem heróis, nem malandragem à moda antiga, ainda que exista muita malandragem.
O antigo malandro usava artimanhas para ter vantagens de uma situação, sempre de forma ilícita, ganhando dinheiro sem trabalhar. Claro que tinha de ter engenho, carisma, subtileza, muita lábia para enganar o otário. Afinal, sem otários não há malandros. Há malandros e malandros, mas de hoje em dia as coisas são diferentes, começando pelos otários, essenciais aos malandros. Hoje, o otário vai às urnas e vota no malandro cuja lábia melhor o convenceu, ou nem convenceu, foi apenas engenho, talvez carisma, mas o otário foi enganado e isso é o que interessa.
Na Idade Média, o povo adorava os malandros como se fossem santos, já que faziam justiça em tempos de pouca comida, enganavam os abastados, sobreviviam sem passar fome, alguns fizeram fortuna. Assim: manipulando, ou fazendo magia. Um malandro medieval ganhou uma fortuna a um nobre por lhe marcar um encontro com o Diabo numa floresta. O nobre pagou, depois dizia que não tinha visto o diabo. Quanto a isso, o malandro não se atrapalhou: Não viste? Mas ele estava mesmo à nossa frente, até me rasgou as calças. E o malandro até tinha as calças rasgadas. Envergonhado, o nobre ainda deu gorjeta.
Portugal sempre teve muitos malandros, continua a ter. Antes eram os malandros do fado, puxando pela goela e palpando o bolso onde estava a navalha. Talvez um malandro de calças rasgadas que cravou dinheiro ao ricaço, marcando encontro com o diabo. Dantes tudo era elegância e estilo, mesmo de calças rasgadas.
Hoje continua a elegância, até de calças rasgadas, porque se usa. O malandro elegante de antigamente foi ultrapassado pelo malandro político, caçando otários à boca das urnas. Acontece que o malandro político, ainda que profissional, aposta mais em favores e falcatruas, deixou de ser amigo dos pobres, ainda que diga pensar neles.
Desgraçado está o produtor de otários. Nunca lhe deu para a malandragem, mas viu-se sem elegância nem estilo, sem saber o que vestir, porque as suas calças rasgadas, estando na moda, deixaram de servir para dizer a algum nobre que se marcou um encontro com o diabo, que até apareceu, o outro é que não o viu.
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Por Leonor Fernandes
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