Envolvidos nos empréstimos a Berardo com muita coisa para explicar

Os contratos de crédito concedidos a Berardo, ou melhor, às empresas e instituições tituladas pelo comendador, estão a ser analisados pelo juiz de instrução depois de entregues pelo Ministério Público a Carlos Alexandre. E obrigam este a ouvir as personalidades que representavam as intituições envolvidas – CGD, CMVM e Banco de Portugal.

O Banco de Portugal, na altura presidido por Vítor Constâncio (entretanto promovido para o Banco Central Europeu) que avalisou a idoneidade bancária da administração da CGD e também a transferência de Santos Ferreira e Armando Vara para o Millenium-BCP. Estes dois administradores estão no furacão da operação pois concederam os créditos a Berardo para comprar uma posição preponderante no BCP e aceitaram a transferência para este banco, operando nele sob a influência/domínio de Berardo que ali colocou o seu advogado ( também detido para interrogatório) como administrador.

Santos Ferreira declarou na comissão de inquérito no Parlamento que a função de um administrador na CGD era a de “criar valor para o accionista” – neste caso o Estado. Um resposta técnica com implicações políticas que aponta para o primeiro-ministro da altura, José Sócrates acusado que foi, na altura de querer controlar o BCP, banco em guerra interna orientada para afastar o presidente fundador, Jardim Gonçalves.

No rescaldo desta guerra, em 2006, Berardo anunciou, no fim das negociações aos jornalistas, que a nomeação da administração estava por dias, como aconteceu. O que significava que ele era o player das negociações ao ter comprado as acções do BCP com o empréstimo da CGD e sem o seu aval pessoal – coisa que nunca dá/deu – e com o penhor das acções que “comprara”.

A crise bancária reduziu os valor patrimonial dos bancos portugueses, e estes – também BES/Novo Banco e Millenium BCP deveriam ter manifestado na sua contabilidade as “perdas” de valor registadas, coisa que não convinha dada a necessidade de provar “os índices de solvabilidade anual – informação que o Banco de Portugal tem o dever de verificar.

Convinha à CGD manifestar na sua contabilidade que o empréstimo dado a Berardo para comprar o BCP estava garantido (e assim informar o BdP de uma situação patrimonial equilibrada. Foi assim que começaram as “renegociações da dívida” que Berardo aceitou fazer mas sem o seu aval pessoal e sem ceder a colecção de arte que controla e que poderá equivaler ao valor agora pedido pelos bancos.

De notar que na altura da nomeação de Vara para administrador bancário, José Sócrates tinha como ministro das Finanças, Campos e Cunha que ocupou a cadeira do poder cerca de 30 dias e se demitiu por recusar nomear o gestor de Bragança – onde sempre tinha sido bancário na CGD. Era o homem de confiança do primeiro-ministro, Campos e Cunha saiu, e Vara passou a administrador. E os créditos foram concedidos. Coisa menor quando o objectivo maior era controlar o Millenium-BCP, “enterrar” Jardim Gonçalves e iniciar uma nova-era de poder em Portugal.

Berardo detido por operações na CGD 

Joe Berardo foi hoje detido para averiguações no âmbito de operações realizadas com a Caixa Geral de Depósitos num valor aproximado de 500 milhôes de euros. O investidor madeirense já tinha sido interrogado no Parlamento numa comissão de inquérito onde tinha explicado estar de consciência tranquila e que todas as operações – nomeadamente a sua participação no aumento de capital do Millenium BCP – tinham sido realizadas a convite dos bancos e cumpriram as normas em vigor, referindo que tinha apresentado as garantias devidas e aceites pela administração do banco.

O Ministério Público não pensa o mesmo e o tribunal convocou-o hoje para, sob detenção, tomar conhecimento da acusação e preparar a sua defesa. Uma acusação e defesa que servirão para a opinião pública ficar a saber sobretudo as metodologias bancárias usadas “antes da crise bancária” em Portugal com epicentro na CGD, BCP e BES.

Joe Berardo vivia na África do Sul – onde acumulou riqueza – e foi convidado pelo Governo da altura a participar em diversos aumentos de capital na banca portuguesa onde actuou, originalmente, em parceria com Horácio Roque que fundara o Banif (entretanto desaparecido).

Os interesses sucessivos dos governos no controlo da banca portuguesa levaram a que Berardo fosse um dos players usados pelas autoridades para intervirem na criação de maiorias de capital circunstanciais que permitiram criar fortunas gigantescas.

O curioso da actual situação verificar-se-á se Berardo na sua defesa decidir revelar os contornos das operações que lhe foram oferecidas e por quem. Nesse caso, entraremos num turbilhão de notícias que explicará aos portugueses a história bem guardada da indústria financeira portuguesa, construída após o 25 de Abrl de 1974.

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Foto Jornal de Negócios – https://www.jornaldenegocios.pt/economia/justica/detalhe/berardo-detido-por-quatro-operacoes-com-a-cgd-no-valor-de-439-milhoes

Notícia editada a 26.06.2021

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