A mulher como pessoa de vida plena

O conceito de género foi-se alterando ao longo dos tempos, quer se goste ou não, mudança esta que se terá iniciado com a sedentarização das populações e a sua dedicação à agricultura e pastoreio. Estas mudanças, também, foram resultantes das transformações da vivência feminina da sexualidade, que a farmacologia permitiu, já que a libertação da mulher da maternidade, enquanto um “fado” quase impossível de controlar, contribuiu para a sua emancipação.

Enquanto que a 2ª metade do séc. XIX e 1ª metade do séc. XX foi marcada pela afirmação das diferenças e da relação de forças entre homens e mulheres, em que aos diferentes sexos eram atribuídos diferentes estatutos e poderes, eram atribuídos diferentes papéis sociais e, aos diferentes sexos correspondiam diferentes práticas jurídicas e diferentes posicionamentos do direito Português resultantes desses diferentes estatutos sociais, com o emergir da segunda metade séc. XX tudo muda.

No entanto, aquela tendência percorreu todo o “estado novo”, sendo glorificada pelo regime (anterior ao 25 de Abril) e em que os discursos sociais dominantes sobre a mulher relacionavam-se com o valor atribuído ao papel que se esperava que aquelas desempenhassem no contexto familiar e no que se refere às tarefas da maternidade ou da conjugalidade.

Mesmo no que se refere ao trabalho, esta dualidade e androcentrismo estava bem vincado na medida em que ao homem caberia a esfera profissional e à mulher a esfera privada centrada na lida da casa. Esta forma de organização foi aquela que terá imperado até aos anos 60 do séc. XX com evidentes resquícios na atualidade.

Até então, o trabalho feminino era encarado como um complemento do rendimento do casal e nunca numa perspetiva de carreira, logo o trabalho não funcionava como mecanismo de aproximação igualitária dos géneros mas de afirmação de uma relação desigual.

A obediência ao marido continuava a ser um princípio inabalável e a independência económica da, esmagadora, maioria das mulheres uma miragem. Aquela continuava a existir em função dele. No entanto, paulatinamente e com a decadência do salazarismo, foram as mulheres da classe média que se começaram a movimentar no sentido de não ficarem aprisionadas no seu papel de donas de casa.

Assim, nos últimos 60 anos operaram-se verdadeiras mudanças no âmbito da condição feminina como resultado de uma maior liberdade sexual das mulheres e da sua entrada e afirmação no mercado de trabalho e de uma maior formação académica.

Enfim, a identidade feminina atual em nada se parece com a identidade feminina do séc. XIX e 1ª metade do século XX, não obstante em Portugal, algumas grupos étnicos percorrerem, ainda, um modo de vida e uma perspetiva das mulheres que nos remete para o séc. XIX.

O presente diz-nos que, cada vez mais, teremos mulheres independentes e afastadas das determinações masculinas que marcaram as mulheres do passado. Esta pode, agora, casar e descasar, procriar ou desprocriar, amar ou sexualizar. O amor eterno é substituído pelo “amar enquanto valer a pena”.

Agora, elas exigem respeito, proximidade, reconhecimento de igualdade, projetos de vida com espaços para o projeto pessoal de cada uma, cumplicidade e tarefas repartidas. Ser mulher agora é ser algo bem diferente de outrora, algo porventura impossível de definir rigidamente.

Ser mulher é uma autorrecriação permanente, entregue a si mesma e ainda com o poder de definir o outro, o masculino. A mulher atual será a mulher emancipada que compete lado a lado com os homens por postos de trabalho tradicionalmente masculinos.

As mulheres atuais rivalizam com os homens pelos cargos de poder, competem e são socializadas para tal. Vivemos o tempo do “feminismo do poder” que afoga rapidamente o feminismo vitimário. No entanto, as mulheres afirmam cada vez mais tudo isto mas oneradas com os papéis tradicionais e com os novos. Os cuidados com os filhos, as principais atividades domésticas e as atividades internas continuam a caber, sobretudo, às mulheres, as quais continuam a ganhar menos do que os homens face a funções iguais.

NB – Este é o último dos artigos de opinião de uma série de três que acedi publicar em resultado do desafio lançado pelo meu – recente mas cada vez mais amigo-, Dr. Arnaldo Meireles a quem agradeço o repto e a oportunidade. Muito obrigado!

Marcos Taipa Ribeiro, autor em Sociedade Justa – grupo privado no facebook

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