O regresso das trevas e a urgência de um novo Iluminismo

Se o mundo for contra a verdade, eu serei contra o mundo.  

Atanásio de Alexandria

 

Segundo Roger Scruton, célebre filósofo britânico especializado em estética e recentemente falecido, a cultura, de que somos herdeiros, em particular a alta cultura, foi talhada durante o período iluminista. Com efeito, a era da razão deixou marcas profundas e desencadeou um processo de secularização da sociedade e das instituições que invadiu todos os domínios da vida e do humano e que, aparentemente, tem tido ainda hoje, resultados contraditórios. 

Este processo  é vulgarmente associado à ação subterrânea da maçonaria setecentista, mas, desfaçamos já essa ideia fantasiosa. Durante este período podemos encontrar nas fileiras da Maçonaria francesa pensadores tão antagónicos como Voltaire (iniciado na oficina Les Neuf Soeurs apenas três meses antes da sua morte) e o ultramontano Joseph de Maistre. Dito isto, voltemos ao tema deste artigo e deixemos estas curiosidades para outro texto. 

Como dizia, a cultura do Iluminismo, que como vimos ainda é a nossa, produziu resultados contraditórios e conflituantes. Ao promover a erosão do sentimento religioso com o consequente acantonamento da influência da Igreja Católica (libertando o indivíduo daquilo que diziam ser as grilhetas do obscurantismo e da superstição) destruiu o alicerce da cultura comum. Se, por um lado, os direitos políticos, sociais e económicos conquistados a partir deste período se constituem como um legado extraordinário, por outro, a fragmentação religiosa, política e ideológica, resultado da promoção do individualismo e do fim de uma dogmática que servia como força aglutinadora, vem criar novos problemas. 

Ainda no séc. XVIII, à medida que a Igreja ia perdendo o monopólio do sagrado, nos salões da nobreza e da burguesia arrivista e endinheirada, seitas ocultistas de toda a sorte indrominavam os seus incautos neófitos com miríficas doutrinas. Desta altura são as estórias do Conde de Saint Germain e do Conde de Cagliostro. 

De lá para cá, e como que num natural desenrolar do impulso iluminista tivemos o positivismo, o marxismo e o bolchevismo. Em certo sentido, a visão comunitária do marxismo é uma resposta à desagregação provocada pela derrocada da Igreja. O sentimento religioso faliu e as seitas multiplicaram-se. Encontramos hoje, numa rua como a rua Faria Guimarães, no Porto, igrejas para todos os gostos e todo o tipo de salvações: lojas de livros e objetos “esotéricos” onde podemos encontrar o repertório completo das delinquescências do ocultismo setecentista e oitocentista; consultórios de gurus, de astrólogos e de tarólogos. 

Neste caos absoluto encontramos profissionais de saúde com podcasts sobre “reconexão espiritual” e “vidas passadas”, gente com formação superior que insiste em não vacinar os filhos e políticos que afirmam estar ligados ao Segredo de Fátima ao mesmo tempo que sugerem ser a reencarnação de um líder político falecido nos anos oitenta. Mais tarde ou mais cedo, esta paródia terá consequências políticas. Estejamos preparados e vigilantes.

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