O direito à bebedeira, ou o dilema do Ti Zé dos Pairos

Comecemos filosoficamente: o ser humano tem o direito de apanhar uma bebedeira? À partida sim, mas parece que isso era dantes. Afinal, temos o mundo e a História divididos em “antes do Covid” e “depois do Covid”. Comecemos por “antes do Covid”.
Para a religião. Sim, até o padre bebe vinho da missa. Segundo o Antigo Testamento, Deus não proibe a bebedeira, apenas proibe que o bêbado saia da tenda e faça figuras tristes na rua.
Para a medicina. Deve-se beber com moderação, mas se apanhares uma bebedeira de vez em quando, não será por isso que morres.
Para a política. Sim, mas embebedem-se sozinhos, porque se houver 2 ou 3 bêbados juntos, não tarda muito estão a dizer mal do governo.
Assim era antes do Covid, depois passou a ser diferente:
Para a medicina: NÃO. Há por aí uns estudos que indicam que o vinho ajuda a prevenir o Coronavírus, e sendo assim estragas o negócio às farmacêuticas.
Para a política: NÃO. Quando muito uns copitos no recolhimento do T2, mas sozinho, porque se forem 2 ou mais ainda começam a dizer mal do governo e fermentam uma revolução.
Quanto à religião, permanece o SIM, que continua a haver vinho na missa e o Antigo Testamento ainda não foi alterado.
Mas foi por coisas assim que o Ti Zé dos Pairos abandonou tudo e embrenhou-se na Serra de Grândola, chegou ao Monte dos Pairos, onde há cerca de 20 anos não vive ninguém. Ia realizar um desejo: apanhar uma bebedeira ao ar livre sem nenhum polícia lhe moer a cabeça.
Teve por testemunha a Lua, que ia cheia. Encheu as narinas com os ares do mato _ madressilva, poejo, orégão. Ouviu um noitibó no seu eterno labor de mudar os ovos de sítio, cantando: Cá vai, cá vai. Além do noitibó as corujas, incluindo as azeiteiras (cinzentas), com aquele canto que parece um ovo a estrelar. Mais um rouxinol pousado no ramo de algum salgueiro, entoando a sua melodia antes que a mãe Natureza lhe ordenasse que ficasse calado o resto do ano.
Depois de três noites e de três bebedeiras, o Ti Zé dos Pairos tomou uma decisão: ficarei por aqui até ao resto dos meus dias, absorvendo os odores do mato, ouvindo corujas e noitibós. Respirou fundo, era o odor da liberdade. Claro, já não tinha de responder ao Censos nem aturar aqueles que pelo telemóvel lhe queria vender aparelhos para os surdos, já que tinha nascido em 1963. Sabia que não tinha Covid, como lhe comprovou o aroma do poejo, da madressilva e do orégão. A vida é fácil, as pessoas é que a complicam dentro de um T2
Leonor Fernandes

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