O acto de visitar idosos residentes em lares

Uma visita a uma instituição, sendo esta residencial ou de saúde, nunca é uma simples visita a um familiar ou amigo. É muito mais que isso, tanto para quem a recebe como para quem a faz.

Para quem a recebe, está a contar os minutos para que esse breve momento chegue. Os minutos tornam-se horas quando se espera. Quando a visita termina, as horas sentiram-se como escassos segundos. É um momento de rir e chorar de alegria porque se vive um pouco junto de quem mais se ama. É um momento em que se questiona como está o mundo lá fora, como estão os outros familiares que não estão presentes naquele instante. É um momento em que se recebem boas e más noticias que depois em solicitude têm de ser geridas internamente da melhor maneira possível. Noticias que, eventualmente, ficam a dançar na mente dia e noite até que chegue a próxima visita.

E quando o tempo de visita termina? Fica o desejo silencioso de “também quero ir contigo, não queria ficar aqui sozinha/o, longe do meu ambiente e das coisas que tanto me sacrifiquei para ter ”. “Tratam-me bem, mas… Não é o meu quarto, os meus móveis, a minha sala, o meu sofá, a minha cozinha, os meus talheres. A minha companhia às refeições não são os meus filhos, o meu marido/ a minha esposa, os meus gatos, nem o meu cão.” Na instituição não se sente a necessidade de perguntar: “Como correu o teu dia?”. Pois os dias, regra geral são idênticos, com uma ou outra actividade que muda e se repete daí a uma semana ou duas! Já o momento em que se recebe uma visita… Esses são momentos únicos, intransmissíveis e impossíveis de se repetirem.

 

Contudo, existe o outro lado desta moeda. E, nem sempre a pessoa que recebe a visita se sente confortável com a mesma, por diversos motivos, porque se sente cansada; porque se sente indisposta ou com dores; porque se sente mal-humorada e/ou a precisar de momentos de solitude. Assim, certifique-se de que a pessoa está com disposição para receber a visita. No caso de não estar, seja empático e compreensivo e altere a visita para outro dia mais oportuno.

Na qualidade de pessoa que recebe a visita: não se sinta ingrato por não estar com disposição física ou mental para receber a visita. A pessoa que o/a ia visitar irá compreender perfeitamente. Na eventualidade da falta de compreensão, não se culpabilize, não pode ser responsabilizado pela ausência de empatia das outras pessoas! 

Não se sinta obrigado a receber visitas por cordialidade, de pessoas que não lhe dizem nada ou com as quais não tem qualquer afinidade. Ame-se o suficiente para seleccionar as pessoas com as quais se relaciona, independentemente do local onde se encontra. Peça ajuda a um profissional da sua confiança, explique-lhe a situação e juntos encontrarão uma solução.

 

Para quem faz a visita, às vezes é sentida com ânsia e prazer, outras como mera obrigação, (“se não for, parece mal!”). Outras com receio de “como é que estará hoje? Estará melhor? Estará mais desperta? Será que me vai conhecer e saber o meu nome?”. Outras ainda, com uma gratidão imensa de ainda terem a oportunidade de poder visitar o seu familiar ou amigo, de poder rir e chorar junto com ele, de lhe poder contar como têm sido os dias lá fora. De pedir a sua opinião acerca de alguma decisão, ou evento actual. É a oportunidade de fazer a pessoa visitada sentir que é importante, que continua presente na vida da família e dos amigos, apesar de residir noutro local.

 

E quem não visita? Que dizer desses? Aparentemente trata-se de descaso, “depositaram aqui e não querem saber!”. Quantos de nós profissionais, visitantes e visitados nos sentimos no direito de julgar de imediato a ausência de determinado familiar ou amigo por não visitar quem está institucionalizado? Não direi todos, mas alguns (Soa mais leve!). A verdade que por vezes se encerra por detrás destas não-visitas, pode ser realmente desinteresse, mas pode igualmente esconder uma dificuldade em lidar com o sofrimento da pessoa que era esperado que visitasse. Nesta incapacidade de gerir o sofrimento do outro, a resposta de auto-preservação é evitar a visita. Dando por vezes desculpas como: “tenho tido muito trabalho”, “não tenho transporte”, “tem muitas visitas, vou atrapalhar”, “não sou assim tão importante, não lhe vou fazer falta”, “quis ir visitar-te, mas o tempo passou tão rápido que não tive oportunidade”. Importa salientar que nem sempre estas respostas são eventuais desculpas, pelo que é preciso levar isto em consideração e evitar julgamentos. Assim, é importante que os profissionais estejam atentos a estas situações para que possam auxiliar tanto o familiar que apresenta dificuldades nesta gestão emocional, como a pessoa institucionalizada para que não se sinta abandonada. 

Compreendemos que em alguns casos o momento da visita tem um impacto emocional intenso, por isso realize a visita quando se sentir emocionalmente mais forte. Não se sinta obrigado a ir, até se sentir seguro para o fazer, até porque a pessoa que é visitada pode perceber o seu desconforto e interpretar de forma errada, sentindo que não quer estar ali por não querer estar com ela ou por não ser importante para si, como ela acreditava ser. Converse com um dos profissionais da instituição ou preferencialmente com o psicólogo da instituição que o/a poderá auxiliar nesse processo e dar-lhe suporte enquanto sentir essa necessidade.

Que comportamentos adoptar quando for visitar um familiar ou amigo?

Recomendável

  • Traga boa disposição!
  • Permita que a pessoa chore, seja porque se emociona, seja porque se sente triste ou angustiada. Se chora na sua frente é porque se sente segura e compreendida por si!
  • Respeite as normas da instituição e não leve alimentos ou outros bens que não sejam permitidos. A entrada de determinados alimentos, por exemplo, pode colocar a saúde do seu familiar em risco ou até mesmo outra pessoa institucionalizada, uma vez que a boa educação portuguesa nos diz para oferecer a quem temos ao lado!
  • Promova a tranquilidade, a auto-estima, a gratidão e a motivação da pessoa que visita.
  • Recorde a pessoa de outras situações de vida em que precisou de coragem e força para enfrentar as adversidades.
  • Faça perguntas abertas sobre como a pessoa se tem sentido, permitindo que expresse o que sente, sem tabus ou preconceitos.
  • Quando a pessoa não compreender o motivo de estar na instituição, converse com ela de modo calmo, reforce os aspectos positivos.
  • Se a pessoa tentar comunicar sobre questões pendentes ou aspectos relacionados com a morte, por exemplo, onde quer ser enterrada ou o que quer levar vestido. Fale sem receios! A pessoa sentir necessidade de conversar sobre estes aspectos, não significa que deseja morrer. Apenas está a comunicar-lhe o que deseja. Assim, como planeamos outros eventos da nossa vida, planear questões relacionadas com a nossa morte é muito natural.
  • Converse com a pessoa sobre como ela é importante para si. O que aprendeu com ela ao longo dos anos. Quais os aspectos pelos quais lhe é grato. Permita que a pessoa faça o mesmo!
  • Mostre à pessoa que está do lado dela incondicionalmente, que sabe que tem sido difícil para ela todo este processo, mas não está sozinha. Além de si e de outras pessoas significativas, tem toda uma equipa do lado dela.
  • Mostre a confiança que sente na equipa. A pessoa tem o suporte de uma equipa competente e diversificada que faz tudo o que está ao seu alcance para que todo o processo seja um caminho feito a três: A família – a pessoa – a equipa.
  • Se a pessoa tiver uma condição clínica que não lhe permite ter um diálogo consigo:
    • Identifique-se “Sou a/o ….”;
    • Elogie-a!
    • Converse com ela, sem esperar respostas.
  • Seja paciente se a pessoa lhe fizer a mesma questão várias vezes (responda tranquilamente e de uma forma simples).
  • Fale para a pessoa de outros assuntos que não a doença. Trate-a normalmente! A pessoa já passa um longo período a pensar no seu problema de saúde.
  • Façam planos sobre o que irão fazer após a alta da pessoa.
  • Se a pessoa tiver animais de estimação: mostre-lhe fotos, vídeos. Tranquilize-a, mostrando-lhe que eles estão bem tratados e acarinhados, como ela o fazia.
  • Pergunte à pessoa se existe algo fora da instituição que ela precise que você lhe resolva.
  • Pergunte sobre se existe alguma pessoa que ela gostasse de ter notícias ou que a venha visitar.
  • Demonstre carinho através de acções e palavras, seja empático e compassivo.
  • Se perceber que a pessoa se sente cansada, tranquilize-a e diga-lhe que volta outro dia para que possa descansar.
  • Seja paciente, amável e compassivo consigo mesmo. Vir visitar alguém que lhe é importante, também é difícil emocionalmente para si.  

Evitar

    • Não leve alimentos ou bens às escondidas para o quarto da pessoa que visita.
    • Verbalizar preocupações que a pessoa institucionalizada não tem como resolver.
  • Não use expressões como:
    • “Coitadinho o que lhe havia de acontecer!”
    • “Ao que nós chegamos!”
    • “Nunca mais volta a ser o mesmo!”
    • “Deixe lá isso, há pessoas que estão piores!”
  • Esconder ou evitar assuntos que envolvem directamente a pessoa, tais como morte de alguém significativo (a pessoa tem o direito de saber e ter a possibilidade de se despedir, peça ajuda à equipa sempre que necessário).
  • Desvalorizar as opiniões da pessoa, por exemplo, “agora está aqui não tem nada a ver com isso!”
  • Ir à visita e falar mal ou fazer intrigas envolvendo familiares não presentes na visita.
  • Não se compare com a pessoa sobre quem está atravessar mais dificuldades ou problemas de saúde.
  • Não faça comentários sobre aspectos relacionados com outras pessoas presentes no espaço de visita.
  • Não compare sofrimentos. Não minimize o sofrimento da pessoa sugerindo que ela deveria ser grata por não estar em uma situação pior.
  • Não faça julgamentos precipitados. Quando existirem dúvidas acerca do estado clínico e/ou rotinas na instituição clarifique junto da equipa.
  • Se observar que a pessoa tem dificuldade em algum aspecto, como por exemplo falar, ou mexer uma perna, ou um braço, não passe o tempo de visita a pedir para que o faça. A pessoa já passa o dia em tratamentos, permita-lhe usufruir consigo de um momento de pausa e descontracção.
  • Se a pessoa tiver uma demência avançada, não faça perguntas como:
    • “Quem sou eu?”
    • “Quem é esta pessoa que está aqui comigo?”
    • “Quantos anos é que tem?”
    • Etc.
  • Ao fazer essas perguntas vai criar a dúvida e mais confusão à pessoa, bem como gerar sentimentos de frustração, se a pessoa estiver num momento de consciência.

Para finalizar, seja uma visita agradável, bem-disposta, carinhosa e transmita a alegria de visitar. Enquanto visitado, mostre a quem recebe que a sua presença fez o seu dia mais feliz e especial.

Susana Duarte

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