Roque Santeiro, lembra-se? As pequenas ditaduras que se espalham nas nossas cidades

Do “Berço do Herói” à cidade de “Asa branca” de Roque Santeiro – Uma memória atual

O “Berço do Herói” foi uma peça de teatro com grande sucesso que serviu de inspiração da telenovela que rodou na RTP em 1985 e que se desenrolava numa cidade chamada “Asa Branca” e que dava pelo nome de “Roque Santeiro”.

Lembro-me deste grande sucesso da telenovela “Roque Santeiro” quando andava na quarta classe com apenas 8 anos tendo chegado a ter uma caderneta com cromos dos atores; Viúva Porcina, Senhozinho Malta, entre outros…um elenco de elite muito mais merecedor de estatuetas de Holywood do que algumas estrelas americanas já galardoadas do cinema californiano…

Em ambas as obras de ficção (Berço do Herói e Roque Santeiro), o argumento é baseado na idolatria desmedida que as cidades pequenas, (Asa Branca e Cabo Roque) se transformam depois da morte dos protagonistas que eram conhecidos por serem boas pessoas, onde todos os agentes sociais da cidade lucram; do status que o presidente da câmara consegue nas eleições com o crescimento da cidade, ao protagonismo que a cidade consegue projetar para fora do seu território até aos comerciantes que lucram com a “santificação” do Cabo Roque e de Roque Santeiro.

Cabo Roque é o protagonista da peça de teatro “Berço do Herói” e é tomada como herói durante a segunda guerra mundial em Itália quando o Brasil combate pela libertação dos italianos subjugados pelos nazis. O episódio decorre quando os colegas do Cabo Roque da sua cidade no Brasil, cidade que mais tarde se vem a chamar “Cabo Roque” em sua homenagem, vêm a sua atitude corajosa em combate, partindo em plena batalha em direção às forças alemãs e não voltando, sendo desta forma dado como morto e como herói.

Na sua cidade Natal, tudo cresce com a sua morte e “santificação”, e tudo passa a girar em função do seu suposto ato de heroísmo, rezam-se inúmeras missas, fazem-se estátuas, aprovam-se inúmeros votos de pesar quando na verdade, o Cabo Roque continuava vivo, retornando à sua cidade e tendo sido morto numa trama preparada pelos líderes da cidade que mais beneficiavam com a sua morte.

No caso da telenovela Roque Santeiro, muitos de vós se lembram e não me irei alongar mas certamente os papéis desempenhados por Duarte Lima, Regina Duarte, José Wilker, Ary Fontoura, Amando Bogus (Zé das medalhas), Fábio Jr. entre outros ilustres atores que são de tal forma marcantes que no decorrer da nossa vida, nos deparamos com situações sociais que nos ocorre a crítica social que estas obras nos querem fazer passar.

No entanto, o que a maior parte do público não sabe é a peça “Berço do Herói” foi uma peça de teatro proibida pela ditadura brasileira que conseguiu por a nú todas as hipocrisias que se viviam nas cidades província na altura e Roque Santeiro é o grito surdo do Brasil liberto do seu autoritarismo e ditadura em 1981.

Um país retardado pela ditadura, tal como era o nosso, sem comunicações, internet’s etc… era um país que facilmente caía nestes fenómenos sociais locais controlados por regedores e ditadores locais. No entanto esta “descentralização” outrora motivada por ausência de tecnologia continua nos nossos dias na moda…A descentralização está sempre na moda…para quem vive em grandes cidades…só que quem vive nelas não sabe dos perigos das ditaduras mais pequenas…

Por Paulo Freitas do Amaral

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