Nos 167 anos do saudoso O Comércio do Porto – a liberdade inconveniente

Se não tivesse sido liquidado com método, precisão e devoção política, o saudoso O Comércio do Porto faria hoje 167 anos. A sua presença nas bancas representava o orgulho de uma cidade invicta, nobre e burguesa, com uma liberdade que só os tripeiros sabem defender. Morreu após decisão partidária cozinhada em Lisboa, seguida de trapalhada condimentada em terras de Fafe, mais tarde acolhida por serventuários àvaros de comissões de intermediação. 
Mas que fale quem sabe. Joaquim Queirós seu ex-director que partilha aqui o seu testemunho:
DÁ VONTADE DE CHORAR – Se não tivesse sido morto o que foi o jornal diário mais antigo do continente português (nos Açores existe o mais antigo do país – o Açoreano Oriental) “O Comércio do Porto faria amanhã, dia 2, 167 anos!
Nascido como “Commercio”, cedo passou a acrescentar o Porto no seu titulo. Escreveram e imprimiram-se as primeiras páginas pertinho da Ribeira e onde há hoje uma rua com o seu nome.
Fundado pelo prof. Bento Carqueja, professor universitário, mais tarde passando a ser propriedade de seus herdeiros, a família Seara Cardoso.
Monumento à defesa da Liberdade, do Porto e da vasta região nortenha, durante o maior espaço da sua vida, era “O Comércio do Porto” na Avenida dos Aliados.
Gerações e gerações de trabalhadores marcaram as suas vidas no escrever e editar do jornal, centenas de gente da Cultura deixaram o seu valor nas páginas do jornal, sobretudo dos escritores do fim e do principio dos anos XIX e XX.
O mais velho dos diários que foi o primeiro, a nível nacional, a aderir às novas tecnologias, nos anos 80. Que conseguiu transpor os obstáculos criados com a mudança do regime político, em 1974, recuperando a Liberdade perdida e voltando a colocar nas mãos do seu público leitor o companheiro de vida de muitos anos.
O valor da escrita acabaria, no entanto, por ser transformado em jogos políticos e financeiros (o jornal pertenceu ao Banco Borges & Irmão), um palco para a representação de interesses vários. E, fatalmente, foram-se os anéis e também os dedos.
Fomos um dos imensos trabalhadores de “O Comércio do Porto”, foi para nós uma escada na vida, servimos o “nosso” Comércio com a maior dedicação, durante 22 anos o grande apoio da nossa existência e de consideração social.
Entendemos que “O Comércio do Porto” ainda hoje podia estar todos os dias nas mãos dos portugueses, mas houve quem não quizesse, e também quem fizesse um esforço sério para não o deixar morrer.
Resta que “O Comércio do Porto” continuará para sempre, na história da imprensa nacional, a ter o seu lugar a par dos maiores.
Um abraço a todos aqueles que foram meus camaradas de trabalho e que, como nós, também recordarão esta data. Uma saudade para a multidão que ao longo dos anos viveram para servir “O Comércio do Porto”. Um agradecimento eterno a todos que suportaram o custo da existência do jornal, investindo os seus capitais, desde Bento Carqueja a Seara Cardoso. Igual sentimento para os que se seguiram com boas intenções como foi o caso da administração presidida pelo dr. Adalberto Neiva de Oliveira que teve uma acção de recuperação duma dignidade perdida, na confusão de Abril, mas que em poucos anos depois se viu “assaltado”, repetimos, por interesses financeiros e políticos.
Foi uma perda não só para a região, mas nacional. Enterrou-se, em vala comum, todos aqueles que quase a centena e meia de anos o tinham erguido. Sem uma flor.
Joaquim Queiroz, ex-director de O Comércio do Porto
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