Aumenta o desemprego e faltam trabalhadores

A indústria de mobiliário precisa de cinco mil novos trabalhadores e está a recusar encomendas que lhe aparecem no pós-covid. Uma reacção em alta da economia, com o atrofiamento dos canais de distribuição ainda a reorganizarem-se após a paragem de actividade na luta contra a pandemia. Os economistas avisaram para uma repentina subida da procura que está a testar as unidades de produção e a atolar portos e aeroportos bem como outros canais de comunicação.

Um teste à capacidade industrial e comercial instalada na Europa, mas também em todo o mundo. Teoricamente seria a esperada reacção em V com uma velocidade de procura acima da média, limpando os stocks das indústrias, elas próprias com dificuldades na aquisição de matérias primas que tornando-se raras porque inacessíveis sobem de preço.

Em Portugal, faltam trabalhadores para a indústria (neste caso mobiliário), no momento em que o INE refere um relativo aumento de desemprego. Um teste à capacidade produtiva do país, entalado entre a força de trabalho que precisa e a disponibilidade dos portugueses em aceitarem o trabalho que o mercados lhes oferece.

Por um lado, esta situação pode ser uma boa notícia enquanto significar que os trabalhadores portugueses melhoraram as suas qualificações e procuram, no país e fora dele, melhores remunerações e mais adequadas à sua formação profissional; por outro pode ser uma má notícia por explicar que a formação em que o país investiu não resolveu a procura indicada pela economia, espeicalizando trabalhadores nas áreas essenciais, ligadas à produção.

Esta dicotomia terá de ser resolvida e tudo indica que o país terá de optar por investir fortemente na emigração, acolhendo pessoas que entendam encontrar em Portugal o seu paraíso laboral.

O dilema da economia e da política

Contudo a teimosia da economia em funcionar com as leis do mercado e a narrativa política no nosso país não se conciliam facilmente perante o discurso dual do governo que por um lado mantém a “política de contas certas” – isto é cumpre os requisitos ditados por Bruxelas – e as cedências à sua base de apoio parlamentar (vai continuar a ser assim) que, como se viu na debate do Orçamento entretanto chumbado, criam um ambiente empresarial onde o tratamento dados às empresas não é favorável sobretudo se visto no âmbito de concorrência internacional a que elas estão sujeitas.

Precisa o país de aprofundar ou criar algum consenso em matéria de “economia política” – isto é, como legislar no sentido da criação e distribuição de riqueza. Como proteger os direitos dos trabalhadores e a sua remuneração digna (e das suas famílias) e, ao mesmo tempo, permitir que as empresas mantenham a sua motivação de investimento capaz de garantir o seu crescimento.

Este é o busílis da política portuguesa que precisa de ser resolvido pela Esquerda (no poder) e pela Direita (na Oposição). A Esquerda precisa de entender que não se distribui o que não se cria, sendo necessário preparar o terreno para que seja fértil e justifique a acção de quem pode investir. A Direita tem de aceitar que a criação da riqueza desenhada pela sua inciativa individual e empresarial visa a justa remuneração  de quem apenas pode participar nessa criação com a sua inteligência e força de trabalho.

Esquerda e direita precisam de partir do mesmo ponto de partida – pelo trabalho e uso do tempo criamos em conjunto novos oportunidades de partilha de bens entretanto produzidos de acordo com a procura.

Cumprir as regras da economia não é ideologia, antes se apresenta como tarefa a reconhecer por todos. Exactamente para que reagindo às suas surpresas nos adaptemos para vencer a guerra da competição (global).

Teodora Cardoso, ao ECO

Teodora Cardoso – ex-presidente do Conselho das Finanças Públicas – diz-nos hoje no ECO que “Não podemos criticar os políticos por só olharem aos resultados imediatos das medidas que adotam e simultaneamente avaliá-los apenas com base nesses resultados“, argumenta, defendendo que “o que importa perspetivar para 2022 não é o facto de, nesse ano, o PIB ficar algumas décimas acima ou abaixo de 2019″. Ou seja, é quase indiferente se o PIB cresce 5,5% (previsão do Governo no OE2022) ou 5,1% (previsão do CFP e do FMI em políticas invariantes).

O que importa para Teodora Cardoso é olhar para o que fizeram os países que já atingiram ou estão perto de atingir o nível de atividade económica pré-crise pandémica. “Fizeram-no porque obedecem a princípios de governação económica que privilegiam a competitividade assente na produti­vidade e na responsabilidade financeira“, considera.

Este tema tem estado no centro do debate político-económico entre o PSD e o PS. Os social-democratas acusam os socialistas de implementarem as medidas erradas, de serem pouco ambiciosos no crescimento económico e de se contentarem com recuperar o PIB em 2022 quando vários países da União Europeia lá chegarão ainda este ano.

O contra-argumento do Governo do PS é que Portugal, dado o peso do turismo (atividade fortemente afetada pela pandemia) no PIB, só é comparável com os países europeus onde esse setor também é relevante — como é o caso de Espanha, Itália ou Grécia — e que nesse campeonato a economia portuguesa lidera na retoma económica.

Focada no futuro, a ex-presidente do Conselho das Finanças Públicas afirma que “a oportunidade que se abre em 2022 é a de finalmente aceitarmos esses princípios [de governação económica], pô-los em prática (e não apenas na retórica) e iniciarmos a viragem que leve a recuperar o tempo que andamos a perder há um quarto de século”.

A prioridade deve ser discutir e escrutinar sobre “o modo como aproveitarmos essa oportunidade” — presume-se que também através da implementação do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) –, acrescenta. Até 2025, Portugal tem de executar mais de 16 mil milhões de euros de subvenções e empréstimos que chegarão da parte da Comissão Europeia.

Foto: Diário de Notícias, in: https://www.dn.pt/dinheiro/oe2019-teodora-cardoso-alerta-para-orcamentos-eleitoralistas-com-o-pais-na-mira-dos-mercados–9880340.html

 

 

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