A carta e o alerta de António Oliveira que deve ser lido em todos os partidos

O mundo do futebol – hoje cada vez mais importante na análise política porque nunca foi uma actividade tão importante como agora no nosso país – tem dado à sociedade portuguesa muitos líderes além de se ter transformado numa indústria vencedora, apesar de tudo, quando para ele olhamos como expressão industrial.

António Oliveira é um deles, provavelmente um dos mais ilustres, e tem um futuro social e político próprio que lhe permite escolher o momento em que quer intervir e como. Aceitou o convite de Rui Rio para concorrer à Câmara Municipal de Gaia e constituía uma boa opção do PSD para a cidade de Gaia.

Do futuro de Oliveira muitos analistas falam e sobretudo os inúmeros adeptos do FC do Porto que se sentem confortáveis por esta personalidade nunca ter colocado de parte a possibilidade de um dia ocupar a cadeira do eterno presidente. Um activo, precioso e dedicado, que ninguém está em condições de dispensar. Mas todos sabem que chegado o momento, o perfil deste homem, jogador do FC Porto e Sporting, empresário, e outras dimensões que ao longo da vida soube cultivar, fazem dele uma personalidade importante para ajudar as comunidades em que está envolvido desde que se sinta motivado.

A experiência de vida acumulada, submetida aos mais duros testes que só o tempo é capaz de fazer, moldaram-lhe o carácter e teceram nele as características de liderança que ninguém está em condições de dispensar.

Rui Rio – que professa um cepticismo militante quando se trata de avaliar “homens do futebol” – escolheu-o numa opção empenhada pois via em António Oliveira as capacidades de liderança necessárias para gerir a grande cidade de Gaia. Não estava enganado e Oliveira provou-o nomeadamente no momento em que teve de anunciar que se retirava da corrida, nisso prestando um serviço de esclarecimento a todos os partidos políticos quando se trata de escolher as melhores equipas para desenvolver uma comunidade.

A carta de António Oliveira

Há sensivelmente três meses, fui convidado pessoalmente pelo Dr. Rui Rio, presidente do PSD, para ser candidato à Câmara Municipal de Gaia.
Vila Nova de Gaia é a terra onde vivi muitos anos e onde tenho residência. Onde residem os meus filhos e os meus netos. É a cidade à qual entendi dar o meu contributo cívico e a minha dedicação pessoal.
O convite do PSD foi algo que muito me honrou. E que, após reflexão ponderada e face à ausência de quaisquer condições na elaboração do programa ou das listas concorrentes ao executivo municipal, tive o prazer de aceitar.
Tornei-me militante do PPD – Partido Popular Democrático em 1976, pela mão do Senhor José Maria Pedroto e sob a liderança de Francisco Sá Carneiro.
Um partido de causas, de valores e de gente séria e decente. Ao longo de 45 anos de militância, participei na vida política sempre como militante de base, mas nunca precisei do PSD.
Sempre vivi do meu trabalho. Nunca dependi do Partido.
Mas também não sou ingénuo, distraído ou mal-informado. Nunca pensei, porém, que a política e os partidos, quando se deixam apropriar por alguns, ainda que localmente, pudessem descer a um nível tão baixo e tão miserável.
Ao longo de três meses fui sujeito a pressões, intimidações e ameaças. Tentaram impor-me o pior da “mercearia partidária” e tentaram envolver-me nas mais inacreditáveis negociatas de lugares. Enfim, quiseram obrigar-me a empregar os beneficiários do rendimento mínimo da política.
Não conheço este PSD que, em Gaia, está prisioneiro de quem só lhe faz mal, para fazer bem a si próprio. Não quis acreditar que fosse possível fazer política com base nos piores princípios da espécie humana. Mas, aqui, em Gaia, no meu partido de sempre, é o que se passa.
Ao longo destes três meses, nunca vacilei, nunca negociei e nunca tremi.
Hoje, com vergonha do que vi, com uma imensa dor de alma pelo que senti, tenho que dizer que: não quero, não posso e não aceito continuar a encabeçar esta candidatura.
Isto não é uma desistência. Isto é uma questão de higiene. Uma recusa de pôr os interesses de uns personagens à frente dos interesses dos 300.000 gaienses e pessoas que escolheram este grande concelho para fazer a sua vida.
Não vou nomear responsáveis, culpados ou traidores. Infelizmente são os mesmos que já vem a prejudicar o partido há anos demais.
Mas deixo uma palavra ao Dr. Rui Rio, a pessoa que me convidou para o desafio que abracei com todo o entusiasmo e com a maior das motivações:
Teria sido possível apresentar um excelente projeto para Vila Nova de Gaia, oferecer uma alternativa de governo aos cidadãos e levar a cabo uma campanha vencedora. Gaia Merece muito mais do que tem tido com estes executivos liderados pela atual maioria.
O Dr. Rui Rio não tem culpa do que se passou. Terá sido, como eu fui, uma vítima do aparelho. Terá sido, como eu fui, traído por uma máquina que tudo faz por lugares, cargos e salamaleques.
Quase sem exceção, estamos a falar de gente sem nome, sem mérito e sem profissão.
Eu não preciso disto para sentir que dou um contributo à sociedade. Eu não preciso disto para agradecer ao meu país tudo o que ele foi capaz de me dar. Eu não preciso desta política. Com certeza encontrarei outros projetos de participação cidadã, talvez até em Gaia, em que possa saudavelmente ter um papel pleno e sério.
Preciso muito mais de sentir e de ser fiel aos meus valores. Preciso muito mais de não transigir na minha dignidade.

As consequências da carta

Que um candidato desista em sede de preparação de uma candidatura é um acto natural, tendo aliás o mesmo acontecido dias antes na cidade do Porto, nas hostes do Partido Socialista. Pelo que esta carta merece ser lida num âmbito mais alargado, no que constituirá uma reflexão necessária para aqueles que estudam e gostam da política, pois retrata uma ambiência que matiza o submundo das decisões partidárias, cheias de bunkers onde abundam interesses instalados e especializados em fazer refém toda e qualquer inovação ao nível das ideias e da liberdade de escolher os mais capazes e dotados de serviço à comunidade.

Para os mais desatentos, lembramos que foi este espírito de “abertura e novidade” que implantou na cidade Invicta a candidatura vencedora de Rui Moreira. Os impedimentos que levaram à desistência de António Oliveira mais não são do que expressão do mesmo estilo de actuação que prefere condicionar a vitória eleitoral ou a mudança, aos interesses de quem se afirma dono da democracia atolando um grande partido nas pequenas ambições pessoais de quem, no momento, gere a máquina partidária.

Com este nó cego interno, o PSD de Gaia perdeu a oportunidade de apresentar uma candidatura inovadora e contribuiu para que se consolide a ideia que a renovação política é mais fácil de fazer se for usado o estratagema de candidaturas independentes. Esta ilusão apenas amolece o ímpeto democrático que o povo ainda sente, apesar do mau contributo destes mordomos da política.

 

 

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