A Capela da Senhora da Serra: o maior templo do Nordeste Transmontano, na primeira metade do séc. XVI.

Vamos então à leitura espacial da Capela de Nossa Senhora da Serra, o documento mais elucidativo para a compreensão do Santuário e que foi a base a partir da qual concebemos este nosso estudo. Enunciemos, primeiro, um princípio epistemológico básico: sendo certo que, na história da arquitectura, o monumento é sempre o melhor documento, então, quando existe um grande vazio documental, a sua importância científica é decisiva (Robledo, 2003, 482). Começamos a sua leitura pela análise arquitéctonica, dos finais do séc. XVIII, da autoria do Abade de Sepúlveda.

Escreveu ele que (…) todo o vão se divide em três naves por doze colunas de cantaria lavrada, seis de cada lado em iguais distâncias que sustentam todo o tecto do corpo do edifício (…) o arco que divide a Capela-Mor do corpo do templo e o púlpito são da mesma arquitectura das colunas lavradas, cuja arquitectura é a que nos mostra maior antiguidade do edifício (…); a capela-mor tem uma fresta grande ao Nascente que de todo a ilumina; e o corpo do templo outra igual ao Poente, muito próxima do altar colateral daquele lado. Três portais de pedra de cantaria, fechados em arco ponteagudo, servem para a sua entrada e comunicação: o das portas principais, o das travessas e o que vai da Capela-Mor para a sacristia. O tecto e pavimento de todo o edifício é de madeira de castanho, hoje totalmente reformado, e só junto ao Altar-Mor e portas principais é o pavimento lageado. (Sepúlveda, citado por Campos, 1983, 26 e 35 e sublinhados nossos).

Assim, comparando a Capela, de há cinco séculos atrás, descrita pelo Dr. João de Barros, com o templo que hoje nos acolhe, arpoamos as seguintes alterações:

  1. a) na descrição de Sepúlveda, as três portas do edifício eram fechadas em arco ponteagudo, nos finais do séc. XVIII, ou seja, em arco apontado, tal como o arco triunfal, que divide as três naves da capela-mor. Tire-se daqui já a primeira conclusão: o corpo da capela iniciava-se nas portas principais, em arco apontado, e acabava no arco triunfal, igualmente apontado, à entrada da capela-mor, abrindo-se a porta lateral sul também em arco apontado. Logo, estes três elementos arquitectónicos, iguais, os dois primeiros balizantes dos doze suportes de granito das três naves, não deixam espaço físico, nem epistemológico, para terem entrado quaisquer outras reformas dimensionais no templo, nas suas três naves, desde a sua primeira referência, há cerca de quinhentos anos atrás;
  2. b) entre 1897 e 1939, durante os quarenta e dois anos em que esteve à frente da paróquia da Villa de Rebordãos o Abade João Inácio da Costa, a Capela da Senhora da Serra foi objecto de várias reformas. Vejamos as principais: substituíram-se duas das três portas, em arco apontado, referidas no ponto anterior, pelas que hoje utilizamos, em arco redondo; ampliar os vãos de entrada e saída do templo foi o objectivo visado; abriram-se mais três janelas, no corpo do templo, duas a poente e uma a nascente, porque no tempo do abade de Sepúlveda só havia uma a poente; ergueu-se também o coro da capela, aumentando a sua capacidade de receber mais devotos (Campos, 1983, 47); deve estar aqui, na preparação das bases seguras para o lançamento do coro, a razão por que, depois das seis colunas da frente, quatro circulares e duas sextavadas, se levantaram os seis grossos pilares seguintes (anexo III), que tinham de suportar a pressão do coro, intumescido de devotos da Senhora da Serra; ao contrário dos pilares encorpados, as colunas, de fuste muito fino, não suportariam o alçamento deste pesado primeiro andar da capela; viram, assim, longe os mestres dos finais da Idade Média: o volume de devotos da Senhora da Serra tinha crescido tão rapidamente que, mesmo dispondo de um templo grande de três naves, mais tarde ou mais cedo, o espaço voltaria a faltar. Por isso, o mais funcional era deixar já, no sítio, os pilares corpulentos do futuro coro; sublinha-se também a morfologia dos dois pilares, seguintes às duas colunas sextavadas, que remetem, cada um, para oito caneluras e 0quatro colunelos, nos respectivos cantos, tipologia que tem de ser lida ainda à luz da arquitectura gótica; igualmente, a decoração dos seus dois capitéis é a mesma dos seis das colunas da frente, todos afinando pela mesma manufactura temporal; quanto aos outros quatro pilares quadrangulares, vizinhos das portas principais, o seu talhe inicia-se no ocaso do gótico, sendo muito comum nos templos da Idade Moderna. (Lemos, 1993, 58); nesta acomodação do coro, abriu-se também o óculo, herdeiro da rosácea medieval, por cima das portas principais, que não consta da descrição detalhada do Abade Sepúlveda; a própria patine deste elemento assume tempos recentes; a cornija e os cunhais de granito, que desenham a fachada poente, reflectem também o período destas obras.

Nesta reforma arquitectónica, impulsionada pelo Abade João Inácio da Costa, já durante o primeiro terço da centúria anterior, a construção de novos quartéis terá crescido para além do dobro dos que deixou o Abade de Sepúlveda, nos meados do séc. XIX. Era a resposta a uma procura crescente dos novenistas – os devotos das novenas da Serra e residentes nos quartéisdepois deste Abade, de pulso forte, ter proibido as dormidas na Capela, como vimos atrás.

Mas, então, a Capela da Senhora da Serra manteve-se, espacialmente, intacta, ao longo dos seus cinco séculos? Não, porque na segunda metade do séc. XVII, a capela-mor, que o Dr. João de Barros viu nos anos quarenta de quinhentos, foi demolida e substituída pela actual, mais larga e mais alta. A capela-mor anterior — que era a pequenina capela primitiva – acabou sendo exígua para as solenidades litúrgicas dos grandes dias de festa. Para além das duas datas gravadas na esquina nascente/sul, informando-nos que esta obra decorreu entre 1659 e 1671, o eixo da nova capela-mor não respeitou o do corpo da Igreja, comandado pelo fecho do arco apontado, que divide ambos os espaços. Por outro lado, dado que este arco cruzeiro foi erguido em função da capela-mor anterior – que era a primeira capelinha, mais baixa — não permite, atenta a sua reduzida altura, que tenhamos uma vista ampla do retábulo da capela-mor, quando entramos pelas portas principais. Consequências da junção de dois espaços, erguidos em tempos diferentes, um do séc. XVI, e o outro da centúria seguinte, que os construtores da nova capela-mor não foram capazes de harmonizar.

Do templozinho primitivo, que desempenhou as funções de capela-mor, até à segunda metade do séc. XVII, parece manter-se, ainda hoje, o discreto campanário, em arco redondo, de três singelas peças, sozinho, sem pináculos e quase despido de elementos decorativos. A sua identificação recorta-se facilmente pela sua ínfima dimensão em relação à monumentalidade da nova capela. Um templo majestoso, tamanho como um mosteiro, tinha de mostrar um campanário maior, proporcional à volumetria da capela recém-construída, uma casa grande de três naves, como lhe chamou o Dr. João de Barros. Mas outra foi a decisão dos seus construtores: como memória da capelinha original, do séc. XIV, decidiram transferir o seu campanariozinho, muito humilde, para o novo templo. Sete centúrias depois, continua a chamar os devotos da Senhora da Serra, várias vezes ao dia, durante a novena.

Depois da análise que fizemos, auxiliados pelo relatório denso do Abade Sepúlveda, não temos qualquer dúvida que, espacialmente, com excepção da nova capela-mor, do coro e das duas sacristias, a Capela da Senhora da Serra é a mesma que viu o Dr. João de Barros, há cinco séculos atrás. Mas voltemos a citá-lo, mais em pormenor, para ver se a sua descrição sustenta, ainda mais, a nossa leitura dimensional do templo.

O Dr. João de Barros não era um visitante qualquer. Era doutor em Leis pela Universidade de Coimbra. Tratava-se, portanto, de um homem que escrevia sopesando as palavras, procurando, objectivamente, a realidade, como forma de atingir a verdade da sua explicação.

Vamos acompanhá-lo na sua viagem ao Nordeste Transmontano para sabermos o que ele ortografou de outros templos da actual diocese. Começando pela igreja de Moncorvo, escreveu que havia (…) quarenta anos que se começou e não é acabada e sempre trabalhão nela (…) (Barros, 1919, 120). Se aplicarmos a mesma bitola de tempo à construção da Capela da Senhora da Serra, então este edifício ainda iniciou os seus fundamentos no ocaso do séc. XV – finais da Idade Média.

Descendo à Vilariça, próximo do abraço de boas vindas do Douro ao Sabor, não se esqueceu de tirar do anonimato e do esquecimento a capela do Roncal, que, embora muito encolhida, ele valorizou pela quantidade de epigrafia romana que forra as suas paredes, referindo que (…) tinha muitos letreiros em pedras (…); de Bragança, içou apenas o mosteiro de S. Francisco, sobre o qual a sua pena não deixou cair um único adjectivo; seguiu-se o mosteiro do Castro de Avelãs (…) que tinha muitos frades e valia hum conto de renda (…); vem depois a descrição do Santuário da Senhora da Serra, (…) que era uma hermida que há pouco se fundou de esmollas e ofertas e se fez hua casa tamanha como hu mosteiro, grande de três naves (…) (Barros, ibidem e sublinhados nossos). Repare-se no peso dos adjectivos: a capela, sendo tamanha como um mosteiro, o autor ainda sentiu necessidade de sublinhar, para que não ficassem quaisquer dúvidas da sua monumentalidade, que o templo da serra era grande de três naves; e mais, não só utilizou como termo de comparação um mosteiro, edifício habitualmente amplo, como carregou em dois qualificativos: tamanha e grande. Ora, se o comprimento das três naves, que hoje observamos, tivesse crescido conforme a tipologia que os doze suportes – seis colunas, quatro cilíndricas e duas sextavadas e seis pilares, quatro quadrangulares, e dois de largas caneluras (anexo III) — parecem hoje sugerir, então a Capela da Senhora da Serra nunca poderia justificar, na primeira metade do séc. XVI, a carga grandiosa de qualificativos, usada pelo visitante, e que ele não voltou a repetir na descrição de qualquer outro templo do Entre Douro e Minho e Trás-os-Montes.

Ainda sobre igrejas, não se esqueceu da de Azinhoso, Mogadouro. Mas, para a sua dimensão, poupando nos adjectivos, também não pingou nenhum da sua pena. Ou seja, o Dr. João de Barros, na sua viagem de investigação geográfica ao Nordeste Transmontano, só, no ápice da Serra da Nogueira, se encontrou verdadeiramente com um templo monumental, que classificou como tamanho e grande. Para as outras igrejas e capelas serviu-se apenas de uma linguagem tão enxuta de qualificativos que não teve necessidade de tirar nenhum da sua paleta lexical. E mais: depois de lido todo o seu livro de investigação geográfica ao Entre Douro e Minho e Trás-os-Montes, podemos afirmar, com toda a segurança, que, exceptuando as Sés do Porto e Braga e alguns mosteiros, a Senhora da Serra foi o único templo que o surpreendeu pela sua grandeza.

Concluindo, a descrição da Capela de Nossa Senhora da Serra, radiografada pelo Dr. João de Barros, pouco tempo depois de erguida, há cinco séculos atrás, avaliza a análise espacial que fizemos acima. Sendo assim, este templo era então o maior do actual Distrito de Bragança. A Sé de Miranda, caput da nova diocese, só abre os seus alicerces a partir de 1552, anos depois da visita do Doutor do Porto à Serra e a paroquial de Moncorvo, embora também de grandes dimensões, ainda não estava pronta, apesar de quarenta anos de obras constantes. E, mesmo hoje, com excepção das duas Sés, a de Miranda e a de Bragança, da igreja de Moncorvo e do Santo Cristo de Outeiro, a ermida da Senhora da Serra continua a ser o templo, de grande dimensão, da área da diocese de Bragança.

Ernesto Vaz, historiador e arqueólogo, residente em Samil, Bragança

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