O Dia da Liberdade e a liberdade: Um passeio pela história

Neste dia, festejamos a graça da liberdade com júbilo e alegria. Neste texto, venho trazer à reflexão algumas das possibilidades de olhar a liberdade, passando pelos campos popular, filosófico, histórico e religioso.

Começando pelo lado popular, trago alguns provérbios, tais como: “a liberdade não consiste em fazer o que se quer, mas o que se deve”; “é liberdade fazer tudo o que não prejudica os outros”; “quem tem saúde e liberdade, é rico e não o sabe”; “liberdade sem juízo é pólvora em mão de menino”. Teríamos muitos mais, mas estes, chamaram-me especialmente a atenção, pela dicotomia liberdade-dever, liberdade-moralidade, liberdade-gratidão e liberdade-comportamento, respetivamente. Sabedoria genuína e empírica da humanidade que vive e convive. 

Contudo, a liberdade é uma problemática que está intrinsecamente presente na génese da criação humana, segundo as Escritura Sagradas, nomeadamente pelo livre arbítrio inerente à criação. Porém, esta liberdade de escolha define o caminho da vida plena em oposição ao caminho do bem ou do mal. Assim sendo, o primeiro homem a ser criado (Adão) foi aconselhado pelo criador para desfrutar do fruto de toda a árvore com total liberdade, exceto a árvore do conhecimento do bem e do mal, dando a sentença de tal tentação. (Gen 2: 16, 17)

Desta feita, podemos encontrar as seguintes relações quanto à natureza da liberdade: 1) liberdade-escolha, a liberdade entra em relação com a escolha ou a prudência de escolher com obediência de Adão ao criador, o que acabou por não acontecer! (Gen 3: 6) 2) liberdade-verdade, isto é, a verdade como caminho de libertação: “Disse Jesus aos judeus que haviam crido nele: ‘Se vós permanecerdes firmes na minha palavra, verdadeiramente sereis meus discípulos. E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jo 8:31-32 3) liberdade-perdão, “Portanto, meus irmãos, quero que saibam que mediante Jesus é proclamado o perdão dos pecados. Por meio dele, todo aquele que crê é justificado de todas as coisas… (At 13:38-39) 4) liberdade-redenção, “…não há distinção, pois todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente por sua graça, por meio da redenção que há em Cristo Jesus. (Rom 3:21-24)

Passando para uma abordagem mais filosófico-política, a palavra liberdade começou a ter mais enfase no período do iluminismo em que os conceitos liberdade e democracia estavam abertos à discussão, assim como o questionamento das crenças e da autoridade religiosa. Voltaire (1694-1778), no seu livro de bolso Dicionário Filosófico argumentou contra a igreja por incentivar à superstição, repressão e intolerância, defendendo a liberdade de expressão; Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) em Discurso sobre as Ciências e as Artes e em Cartas sobre a Polémica, argumenta que os progressos nestas áreas (ciência e arte) corrompiam a bondade natural das pessoas e limitavam a liberdade; Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831) encarava a história como o progresso em direção à liberdade; John Stuart Mill (1806-1873) na sua obra da Liberdade de Pensamento e de Expressão, discute a liberdade do indivíduo em relação à sociedade e ao Estado, argumentando que “o único objetivo que permite um exercício legítimo de poder sobre qualquer membro de uma comunidade civilizada, contra a vontade deste, consiste em impedir que outras pessoas sejam prejudicadas.

O bem próprio, quer físico quer moral, não constitui justificação suficiente”. A maioria não devia alienar os que dela discordavam e a liberdade de expressão deveria ser incentivada, tendo em conta que o debate genuíno permite que as pessoas examinem as suas convicções.

Na sua obra A Sujeição das Mulheres: Contributos de John Stuart Mill para a emancipação feminina (1869), desenvolve os seus argumentos a favor da liberdade do indivíduo: “a subordinação legal dos membros de um dos sexos ao sexo oposto é errada em si mesma… e (constitui) um dos principais obstáculos ao desenvolvimento humano”; Soren Kierkegaard (1813-1855), concentrou-se na importância do indivíduo, salientando a centralidade da vontade e da liberdade de escolha. Na sua obra Ou-Ou: Um fragmento de vida, compara o modo de vida estético (imediato) com o modo de vida ético (moralidade e vida depois da morte) e afirma que quando as pessoas perceberem que a via da estética leva à ansiedade e desespero, optarão pela via da ética. Acreditava que a liberdade de escolha deixa as pessoas num estado perpétuo de ansiedade em relação às suas responsabilidades perante Deus; Jean-Paul Sartre (1905-1980) dissertou que “o homem, estando condenado a ser livre, transporta o peso do mundo e por si mesmo enquanto modo de ser” e encarava a escrita como um modo de abordar questões relacionadas com a liberdade humana, pois a mesma é uma atividade moral; Michel Foucauld (1926-1984) acreditava que o poder e a liberdade são incompatíveis.

Interessante e ao mesmo tempo complexa esta problemática da liberdade e tudo o que envolve esse sentimento que pode deambular entre o amor e o respeito, como diz Susanna Tamaro, que “…o amor verdadeiro respeita sempre a liberdade e aceita o risco contido nessa liberdade”; entre o prazer momentâneo na medida em que “tudo o que for um vício reduz a liberdade” (Leando Karnal) e por paradoxal que possa parecer, entre o medo e a coragem porque como diz Agostinho da Silva, “para gozar da liberdade é preciso saber escolher” e nem sempre é fácil! Termino esta compilação de citações com uma que me inspira sobremaneira: “Não existe mediocridade, monotonia. O que existe é apenas o nosso medo. Medo de crescer, medo de nos abrirmos às emoções. Medo de descobrirmos que não há nenhuma jaula à nossa volta, que o que existe é apenas liberdade, ar. E se erguermos levemente os olhos, o espaço infinito do céu.” (Susanna Tamaro in O Fogo e o Vento) Não devemos esquecer que sem respeito pelo outro não exercemos a liberdade. Sejamos livres, respeitando o próximo, sempre!

Carlos Silva, músico

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