A fraternidade vence o fratricídio e perdoar garante a paz

Na manhã de domingo (07/03) o Papa Francisco foi a Mosul para uma cerimônia de oração pelas vítimas da guerra no Iraque. Na sua saudação sublinhou: “Hoje, apesar de tudo, reafirmamos a nossa convicção de que a fraternidade é mais forte que o fratricídio, que a esperança é mais forte que a morte, que a paz é mais forte que a guerra”

Na manhã de domingo (07/03) o Papa chegou a cidade de Mosul e dirigiu-se a Hosh al-Bieaa, a praça das 4 igrejas: sírio-católica, armeno-ortodoxa, sírio-ortodoxa e caldeia, destruídas pelos ataques terroristas entre 2014 e 2017. Depois de ouvir os comovedores testemunhos de um sunita e do pároco local que falaram das perdas e dos deslocamentos forçados o Papa fez uma breve saudação e rezou uma oração pelas vítimas e pelo povo iraquiano.

Francisco afirmou que “A trágica redução dos discípulos de Cristo, aqui e em todo o Médio Oriente, é um dano incalculável não só para as pessoas e comunidades envolvidas, mas também para a própria sociedade que eles deixaram para trás. Com efeito, um tecido cultural e religioso assim rico de diversidade é enfraquecido pela perda de qualquer um dos seus membros, por menor que seja, como, num dos vossos artísticos tapetes, um pequeno fio rebentado pode danificar o conjunto”. O Papa também destacou: “Como é cruel que este país, berço de civilizações, tenha sido atingido por uma tormenta tão desumana, com antigos lugares de culto destruídos e milhares e milhares de pessoas – muçulmanas, cristãs, yazidis e outras – deslocadas à força ou mortas!”. E concluiu sua saudação afirmando:

“Hoje, apesar de tudo, reafirmamos a nossa convicção de que a fraternidade é mais forte que o fratricídio, que a esperança é mais forte que a morte, que a paz é mais forte que a guerra”

Oração pelas vítimas da guerra

Francisco fez uma breve premissa: “Antes de rezar por todas as vítimas da guerra nesta cidade de Mosul no Iraque e em todo o Oriente Médio, gostaria de partilhar convosco estes pensamentos:

Se Deus é o Deus da vida – e é-o –, a nós não é lícito matar os irmãos no seu nome.
Se Deus é o Deus da paz – e é-o –, a nós não é lícito fazer a guerra no seu nome.
Se Deus é o Deus do amor – e é-o –, a nós não é lícito odiar os irmãos.

Agora rezemos juntos por todas as vítimas da guerra, para que Deus Omnipotente lhes conceda vida eterna e paz sem fim, acolhendo-as no seu abraço amoroso. E rezemos também por todos nós para podermos, independentemente das respetivas filiações religiosas, viver em harmonia e paz, conscientes de que, aos olhos de Deus, todos somos irmãos e irmãs”.

ORAÇÃO

Deus Altíssimo, Senhor do tempo e da história, por amor criastes o mundo e nunca cessais de derramar as vossas bênçãos sobre as vossas criaturas. Com terno amor de Pai, acompanhais os vossos filhos e filhas, para além do oceano do sofrimento e da morte, para além das tentações da violência, da injustiça e do lucro iníquo.

Mas nós homens, ingratos pelos vossos dons e distraídos pelas nossas preocupações e ambições demasiado terrenas, muitas vezes esquecemos os vossos desígnios de paz e harmonia. Fechamo-nos em nós mesmos e nos nossos próprios interesses e, indiferentes a Vós e aos outros, fechamos as portas à paz. Assim se repetiu aquilo que o profeta Jonas ouviu dizer de Nínive: a maldade dos homens subiu até à presença de Deus (cf. Jn 1, 2). Não levantamos para o Céu mãos puras (cf. 1 Tm 2, 8), mas da terra subiu mais uma vez o grito do sangue inocente (cf. Gn 4, 10). Os habitantes de Nínive, na narração de Jonas, ouviram a voz do vosso profeta e encontraram salvação na conversão. Também nós, Senhor, ao mesmo tempo que Vos confiamos as inúmeras vítimas do ódio do homem contra o homem, invocamos o vosso perdão e suplicamos a graça da conversão:

Kyrie eleison! Kyrie eleison! Kyrie eleison!

[Senhor, tende piedade de nós! Senhor, tende piedade…]

– um momento de silêncio –

Senhor nosso Deus, nesta cidade, dois símbolos testemunham o perene desejo da humanidade se aproximar de Vós: a mesquita Al-Nouri com o seu minarete Al Hadba e a igreja de Nossa Senhora do relógio. É um relógio que, há mais de cem anos, lembra aos transeuntes que a vida é breve, e o tempo precioso. Ensinai-nos a compreender que Vós nos confiastes o vosso desígnio de amor, paz e reconciliação, para o realizarmos no tempo, no breve arco da nossa vida terrena. Fazei-nos compreender que, só colocando-o em prática sem demora, será possível reconstruir esta cidade e este país e curar os corações dilacerados pela dor. Ajudai-nos a não gastar o tempo ao serviço dos nossos interesses egoístas, pessoais ou coletivos, mas ao serviço do vosso desígnio de amor. E quando nos transviarmos, concedei que possamos dar ouvidos à voz dos verdadeiros homens de Deus e arrepender-nos a tempo, para não nos arruinarmos ainda mais com destruição e morte.

Confiamo-Vos as pessoas, cuja vida terrena foi abreviada pela mão violenta dos seus irmãos, e imploramo-Vos também, para quantos fizeram mal aos seus irmãos e irmãs, que se arrependam, tocados pelo poder da vossa misericórdia:

Requiem æternam dona eis, Domine, et lux perpetua luceat eis. Requiescant in pace. Amen.

[Dai-lhes, Senhor, o eterno descanso, entre os esplendores da luz perpétua. Descansem em paz. Amen.]

—– Relato Vatican News

A despedida de Francisco: o Iraque ficará sempre comigo, no meu coração

A saudação do Papa ao povo iraquiano, pelos bons frutos gerados com a viagem apostólica ao país, foi feita ao final da missa em Erbil. Entre “vozes de sofrimento e angústia”, mas também “de esperança e consolação”, Francisco se despediu pedindo um trabalho conjunto entre as várias comunidades religiosas por um futuro de paz e prosperidade que “não discrimine ninguém”: “Allah ma’akum”, finalizou o Papa, “fiquem com Deus”.

Andressa Collet – Vatican News

Ouça a reportagem com a voz do Papa e compartilhe

Nestes dias de viagem apostólica no Iraque, disse o Papa Francisco ao final da celebração eucarística no Estádio Franso Hariri, em Erbil, “ouvi vozes de sofrimento e angústia, mas ouvi também vozes de esperança e consolação”. Isso se deve, em grande parte, acrescentou o Pontífice, “àquela incansável obra de bem-fazer” realizada pelas instituições religiosas de várias confissões, Igrejas locais e organizações caritativas que assistem o povo “na obra de reconstrução e renascimento social”. E com a proximidade do final da visita histórica ao país, o Papa se despediu, afirmando:

“O Iraque ficará sempre comigo, no meu coração. Peço a todos vocês, queridos irmãos e irmãs, que trabalhem juntos e unidos por um futuro de paz e prosperidade que não deixe ninguém para trás, nem discrimine ninguém. Asseguro a vocês as minhas orações por este amado país. De modo particular, rezo para que os membros das várias comunidades religiosas, juntamente com todos os homens e mulheres boa vontade, cooperem para forjar laços de fraternidade e solidariedade ao serviço do bem comum e da paz. Salam, salam, salam! Shukrán [obrigado]! Deus vos abençoe a todos! Deus abençoe o Iraque! Allah ma’akum [fiquem com Deus]!”

Veja em vídeo a despedida em Erbil

A coragem e a fraternidade do Papa

O Papa também agradeceu todos que se envolveram na organização da visita ao Iraque e que rezaram e o acolheram com afeto, entre eles, o arcebispo de Erbil dos Caldeus, dom Bashar Matti Warda. De fato, ao final da missa, ele se dirigiu ao Pontífice, agradecendo pela “coragem” de se deslocar até “este conturbado país, uma terra tão cheia de violência, de intermináveis disputas, de deslocamentos e sofrimento para o povo”. Além disso, acrescentou o arcebispo, uma coragem revelada bem neste tempo de pandemia e de crise global, o que tornam as palavras de Cristo, ‘não tenham medo’, concretas:. “a sua coragem flui em nós”.

O arcebispo também agradeceu pelas orações aos perseguidos e marginalizados do Iraque e do mundo, uma forma de continuar a exortar “um tempo de paz, de humildade e de prosperidade, de dignidade de vida e de perspectivas para todos”.

“Agradecemos a mensagem de paz que trouxe para Erbil e para todo o Iraque. A sua poderosa mensagem de fraternidade e perdão é agora um presente para todo o povo do Iraque, deixando-nos – cada um de nós neste país – com a responsabilidade permanente de dar vida continuamente à sua mensagem em nossa vida diária a partir de hoje.”

Extremismo trai a religião – afirma Papa Francisco

Na terra de Abraão, papa disse que a verdadeira religiosidade é adorar a Deus: ‘quem acredita em Deus não tem inimigos para combater

Na terra de Abraão, na planície de Ur, realizou-se ontem um dos eventos mais aguardados da viagem do papa Francisco ao Iraque. Judeus, cristãos, muçulmanos e representantes de outras religiões reuniram-se para rezar e regressar aos primórdios da obra de Deus junto à humanidade. A cidade, de fato, é citada na Bíblia e é indicada como o local de nascimento de Abraão e onde o Patriarca das religiões monoteístas falou pela primeira vez com o Criador.

Depois de ouvir cantos, e o testemunho de homens e mulheres, o pontífice pronunciou um discurso que mais parece uma poesia, que remete ao diálogo narrado no Livro do Gênesis, quando Deus pediu a Abraão que levantasse os olhos para o céu e contasse as estrelas.

A nossa primeira função é esta, disse o Papa: ajudar os nossos irmãos e irmãs a elevarem o olhar e a oração para o Céu.

Traições da religião

Uma característica de Deus que Francisco continuamente ressalta é a misericórdia de Deus, portanto “a ofensa mais blasfema é profanar o seu nome odiando o irmão”.

“Hostilidade, extremismo e violência não nascem dum ânimo religioso: são traições da religião. E nós, crentes, não podemos ficar calados, quando o terrorismo abusa da religião. Antes, cabe a nós dissipar com clareza os mal-entendidos. Não permitamos que a luz do Céu seja ocultada pelas nuvens do ódio!

O pontífice rezou por todas as vítimas do terrorismo, citando mais uma vez – como fez no discurso às autoridades – a comunidade yazidi. “O Céu não se cansou da terra: Deus ama cada povo, cada uma das suas filhas e cada um dos seus filhos! Nunca nos cansemos de olhar para o céu, de olhar para estas estrelas.”

Deus não é contra ninguém, mas é por todos

Mas é da terra que se olha para o céu e é aqui que somos chamados a percorrer juntos sendas de paz. Não nos salvará a idolatria do dinheiro nem o consumismo, mas somente a partilha e o acolhimento. Não haverá paz enquanto se olhar os outros como um “eles”, e não como um “nós”.

Uma antiga profecia diz que os povos “transformarão as suas espadas em relhas de arados, e as suas lanças, em foices” (Is 2, 4). Esta profecia não se realizou; antes, espadas e lanças tornaram-se mísseis e bombas. E a vizinha Síria é um exemplo disto.

O caminho para a paz, apontou Francisco, começa na renúncia a ter inimigos. “Quem tem a coragem de olhar as estrelas, quem acredita em Deus, não tem inimigos para combater.” Deus não pode ser contra ninguém, mas por todos.
“Cabe a nós instar fortemente os responsáveis das nações para que a proliferação crescente de armas ceda o lugar à distribuição de alimentos para todos.” A vida humana vale pelo que é e não pelo que tem, recordou o Pontífice, que concluiu reafirmando um propósito:

“Nós, irmãos e irmãs de diversas religiões, encontramo-nos aqui, em casa, e a partir daqui, juntos, queremos empenhar-nos para que se realize o sonho de Deus: que a família humana se torne hospitaleira e acolhedora para com todos os seus filhos; que, olhando o mesmo céu, caminhe em paz sobre a mesma terra.”

Papa em Bagdad: manifestações de júbilo e máscaras

Tudo começou para esses fiéis com uma longa e silenciosa espera sob o sol poente de Bagdad. Então, o que a maioria deles apenas imaginou nos seus sonhos mais distantes aconteceu: o papa Francisco apareceu.

Em frente à igreja de São José, na capital iraquiana, os poucos cristãos que receberam o convite para assistir à primeira missa papal da história do Iraque rompem brutalmente o silêncio.

Quando o pontífice de 84 anos chegou, a zaghrouta, saudação árabe característica que as mulheres geralmente fazem em momentos festivos, eclodiu e centenas de mãos foram levantadas para os céus.

No meio de ramos de flores, missais em árabe e rosários entre os dedos trêmulos, Francisco cumprimentou as mulheres, algumas com a cabeça coberta por véus pretos ou brancos. E ele parecia mais feliz do que os iraquianos que o receberam.

Os jovens – poucos presentes – imediatamente pegavam nos seus telefones, baixando as máscaras para tirar uma foto com o papa ao fundo.

 Hóstia e desinfecção

Vozes infantis são ouvidas num coro de boas-vindas ao papa. “Estamos ensaiando há três dias!”, explicou uma das jovens cantoras à AFP, muito orgulhosa, usando um boné com a foto de Francisco, grande demais para sua cabeça.

Após esta recepção, uma pequena parte das pessoas reunidas entrou na igreja, inteiramente rodeada de blocos de cimento, para se sentar nos bancos de madeira, a uma boa distância entre si por causa da pandemia do novo coronavírus.

Outros ficaram do lado de fora em bancos instalados no átrio, em frente a televisões gigantes que transmitiam a missa ao vivo. E novamente, quando entrou a procissão do papa, vestido de branco, os poderosos gritos aumentam enquanto cantos litúrgicos ressoam em árabe num coral com máscaras.

“É o primeiro encontro verdadeiro entre o Santo Papa e os seus fiéis”, festeja o padre Nadheer Dakko, da Igreja de São José, no final do segundo dia da visita papal, marcada por entrevistas oficiais.

Um encontro, no entanto, dificultado por restrições ligadas à Covid-19. Durante a comunhão, na distribuição do vinho e do pão abençoado, o papa não se mexeu.

Em vez disso, meia dúzia de padres munidos de aerossóis desinfetantes os ofereciam aos fiéis na igreja, colocando a hóstia em suas mãos previamente umedecida com álcool.

Na homilia, o papa Francisco evocou o amor, a força de poder dar testemunho e a força de enfrentar a perseguição. Palavras que ressoaram em Nabil Yaacoub, um homem na casa dos quarenta que afirma ter “sobrevivido a tudo” na sua cidade, atingida por quase vinte anos por uma invasão dos EUA, uma guerra civil e ataques extremistas em várias ocasiões.

Cada paróquia teve autorização de enviar apenas treze fiéis. Para todos os outros, mesmo que apenas por alguns segundos e de longe, ver o Papa ainda simbolizou um conforto.

A alguma distância da igreja, um jovem coça a cabeça olhando para os guardas suíços. “Moro na casa ao lado e venho todos os dias para acender uma vela na igreja de São José”, conta Fahada, muçulmano de 12 anos, à AFP.

“Mas hoje, o próprio papa está aqui. Espero que se torne seu costume: espero que o papa sempre venha ao Iraque”, acrescentou.

Texto: AFP, Vatican News e DomTotal

——–Encontro inédito entre aiatolá Al.Sistani e o Papa Francisco

É a primeira vez que o papa Francisco tem um encontro nesta modalidade com um expoente do Islã xiita. O segundo dia do papa Francisco em terras iraquianas começou com o histórico encontro com o grande aiatolá Sayyid Ali Al-Husayni Al-Sistani, na sua residência em Najaf.
O papa saiu cedo da Nunciatura, às 6h50, dirigindo-se ao Aeroporto de Bagdá, distante 28,7 km, para se transferir a Najaf em um voo da Iraqi Airways. Após 45 minutos de voo, foi acolhido no aeroporto pelo governador, transferindo-se logo a seguir, em automóvel, para a residência do grande aiatolá.

“Durante a visita de cortesia, que durou cerca de quarenta e cinco minutos – afirmou o diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, Matteo Bruni – o santo padre sublinhou a importância da colaboração e da amizade entre as comunidades religiosas para que, cultivando o respeito mútuo e o diálogo, se possa contribuir para o bem do Iraque, da região, de toda a humanidade”.

“O encontro – acrescentou Bruni – foi uma ocasião para o papa agradecer ao grande aiatolá Al-Sistani porque, junto com a comunidade xiita, diante da violência e das grandes dificuldades dos últimos anos, levantou a sua voz em defesa dos mais fracos e perseguidos, afirmando a sacralidade da vida humana e a importância da unidade do povo iraquiano”.

Ao despedir-se do grande aiatolá, o santo padre reiterou a sua oração a Deus, Criador de todos, por um futuro de paz e fraternidade para a amada terra iraquiana, para o Médio Oriente e para todo o mundo.

É a primeira vez que o papa Francisco tem um encontro nesta modalidade com um expoente do Islã xiita, visto já ter estreitado laços com uma das mais altas autoridades do Islã sunita, o grão imã de Al-Azhar, Ahmed al-Tayyeb, com quem compartilhou em Abu Dhabi a assinatura do Documento sobre a Fraternidade Humana em prol da Paz e da Convivência Comum.

“A fé leva o crente a ver no outro um irmão que se deve apoiar e amar. Da fé em Deus, que criou o universo, as criaturas e todos os seres humanos – iguais pela Sua Misericórdia –, o crente é chamado a expressar esta fraternidade humana, salvaguardando a criação e todo o universo e apoiando todas as pessoas, especialmente as mais necessitadas e pobres”, diz a primeira parte do Documento de Abu Dhabi.

O papa Francisco deu assim, mais um passo no trabalho de construção desse espírito de fraternidade e respeito entre as religiões e todos os seres humanos, não obstante as diferenças culturais e de pontos de vista existentes. Não só a comunidade iraquiana como um todo poderá se beneficiar deste encontro, mas principalmente as comunidades cristãs e outras minorias.

Residência do Grande Aiatolá

A residência do Grande Aiatolá Sayyid Ali Al-Husayni Al-Sistani está localizada dentro do Santuário do Imame ‘Ali ou Mesquita do Imām ʿAlī, considerada pelos xiitas o terceiro lugar sagrado do Islã, depois da Mesquita Sagrada de Meca e a Mesquita do Profeta de Medina.

A primeira estrutura de mesquita – construída no túmulo de ʿAlī, primo e genro de Maomé e primeiro homem a ser convertido ao islamismo – é caracterizada por uma cúpula verde, que remonta ao ano 786. Os xiitas acreditam que em seu interior também tenham sido sepultados Adão, Eva e Noé.

A mesquita foi destruída e reconstruída várias vezes ao longo dos séculos; a último reconstrução, iniciada em 1623, foi concluída em 1632. A cúpula foi coberta em 1742 por Nader Shah com 7777 placas de tijolos pintados em ouro por Nader Shah. Posteriormente, foram realizadas inúmeras outras intervenções e embelezamentos. A cor externa predominante é o dourado brilhante.

Existem dois minaretes de 38 metros de altura nas laterais da entrada, com três portais monumentais; mosaicos em turquesa cobrem as paredes lateral e posterior. Interiormente, o mausoléu de ʿAlī é incrustado com mosaicos e circundado por um pátio.

Em 1991, durante a insurreição que seguiu a Guerra do Golfo, a mesquita foi danificada pela Guarda Republicana iraquiana de Saddam Hussein. No local, haviam se refugiado membros da oposição xiita ao regime. Todos foram mortos. O local permaneceu fechado por alguns anos. A mesquita foi restaurada pelo líder espiritual dos ismaelitas, Dawudi Bohra, o 52º dāʿī muṭlaq, Syedna Mohammad Syedna Mohammad Burhanuddin.

Quem é o Grande Aiatolá Sayyid Ali Al-Husayni Al-Sistani

Nascido em 4 de agosto de 1930 em Mashhad, no Irã, é o líder da comunidade xiita iraquiana e diretor da hawza (ou do seminário religioso xiita Twelver) de Najaf. Filho de uma importante família religiosa, ele estudou o Alcorão desde pequeno; aos vinte ele deixa o Irã para continuar sua formação no Iraque, tornando-se discípulo do Grande Aiatolá Abu al-Qasim al-Khoei em Al-Najaf e conquistanto, ao longo do tempo, o respeito também dos sunitas e curdos.

A sua interpretação da revelação islâmica silenciosa, que prega a abstenção das autoridades religiosas das atividades políticas directas,  leva-o a ser um interlocutor reconhecido por diversas correntes políticas.

Em 2004, ele apoiou eleições livres no Iraque, dando assim uma importante contribuição para o planejamento do primeiro governo democrático em País, enquanto em 2014 convida os iraquianos a se unirem para lutar contra o autoproclamado Estado islâmico.

Mais recentemente, em novembro de 2019, quando a população saiu às ruas em sinal de descontentamento contra o alto custo de vida e a instabilidade política nacional, Al-Sistani convidou os  manifestantes e forças de segurança a permanecerem calmos e não recorrerem à violência.

Posteriormente,  pediu a renúncia do governo e a reforma eleitoral. Seus pedidos são aceites: o primeiro-ministro Adel Abdul Mahdi renunciou pouco depois, enquanto em dezembro o Parlamento aprovou a reforma eleitoral.—–

Francisco no Iraque – a palavra no meio do furacão

A visita do Papa Francisco ao Iraque, que começa na sexta-feira (5), assume um significado especial e de apoio aos cristãos “que vivem em estado de dúvida e de medo e que passaram por momentos difíceis por causa das guerras”, afirmou em entrevista ao Vatican News, o Pe. Naim Shoshandy. O jovem sacerdote iraquiano de rito sírio-católico acredita que também “será uma oportunidade de estender a mensagem da Fratelli tutti nesta parte do mundo muçulmano”, pois o Pontífice “é para todas as pessoas, porque somos todos irmãos”.
O Pe. Naim Shoshandy confessa que na terra onde nasceu viu o horror da guerra e conhece em primeira mão o sofrimento e a perseguição. Em entrevista ao Vatican News, ele contou que o irmão Raid foi assassinado em Mosul por ser cristão: tanto ele quanto a família tiveram que fugir da cidade, de Qaraqosh para Erbil, quando em 2014 o Estado Islâmico atacou e tomou a cidade onde havia uma importante minoria cristã.

Perdoar é acreditar no Deus da vida

O sacerdote disse que também sofreu a perda do pai devido a um câncer. Todas essas experiências lhe permitiram descobrir a força do perdão, tanto em relação àqueles que mataram o seu irmão quanto em relação à experiência de perseguição. Isso só é possível, afirmou o Pe. Naim, “graças a Jesus porque sempre nos ensinou a perdoar e a rezar pelas outras pessoas”, porque “Deus é um Deus de amor, de paz. Nosso Deus não dá forças para matar ou para a violência”, acrescentou ele.

As guerras deixam marcas profundas nas pessoas e nas sociedades. No caso do Iraque, os cristãos experimentaram medo, insegurança, rejeição e até mesmo a morte, mas a vivência profunda da fé os manteve firmes e agarrados à mão do Deus da vida.

Como esperam a chegada do Papa?

Questionado sobre a visita do Papa Francisco, em viagem apostólica que começa na sexta-feira, 5 de março, o sacerdote disse que “o povo do Iraque lhe dará uma calorosa acolhida, porque estará realizado um sonho tão esperado por pelo menos 20 anos. O povo está feliz e entusiasmado. Estão esperando o Papa de braços abertos, não apenas os cristãos, mas também as pessoas de outras religiões. Todas as medidas de segurança possíveis estão sendo tomadas porque é a primeira vez que um Papa visita o Iraque: a terra de nosso pai, Abraão, e a terra do profeta Jonas”, disse ainda Pe. Naim.

Francisco no Iraque e Oriente Médio

A visita de Francisco assume um significado especial, salientou o padre iraquiano, porque “o Santo Padre tem um lugar especial no coração dos cristãos, na Igreja Oriental. O Papa está vindo para o Iraque e para o Oriente Médio. Isso significa que virá visitar os cristãos e povos que vivem em estado de dúvida e de medo e que passaram por momentos difíceis por causa das guerras. Agora, eles receberão o seu apoio e incentivo”.

“O Papa vai trazer consigo a esperança de melhorar a liberdade religiosa no país”, disse o sacerdote, que acrescentou: “esta visita é uma peregrinação na qual encontramos uma mensagem de irmandade e fraternidade. Encontramos isso na última carta, Fratelli tutti, que tem um significado não só para os cristãos, mas para todas as pessoas nestes países. Parar com as guerras, com as dificuldades e com a morte. Devemos gerar paz, confiança, estabilidade e solidariedade humana. Esperamos muito do Santo Padre. Esta visita será um momento poderoso para que ele revele a verdade. Para mim, é um ato muito corajoso que dá esperança, especialmente nestes tempos difíceis que todos estamos vivendo”.

A visita também será um encontro entre religiões, disse o Pe. Naim, porque o Papa vai viajar à cidade de Najaf, ao sul da capital, Bagdá, para se encontrar com Grão Aiatolá Ali al Sistani, a máxima autoridade muçulmana xiita do país. É importante lembrar que cerca de 75% dos muçulmanos iraquianos são xiitas. Nesse contexto, o religioso afirmou: “será uma oportunidade de estender a mensagem da Fratelli tutti nesta parte do mundo muçulmano, porque às vezes pensamos que o Papa Francisco é somente para os cristãos, mas o Papa é para o mundo inteiro, para todas as pessoas, porque somos todos irmãos”.

O Iraque que aguarda o Papa

O Pe. Naim, então, concluiu a entrevista lembrando que o Iraque é “um país que está em guerra há muitos anos. A visita é considerada uma indicação da importância do Iraque em nível internacional, apesar de tudo que sofreu e continua sofrendo. Esta visita é uma etapa importante para conter o extremismo e aqueles que o apoiam. É como nos dar uma nova vida, nova coragem, vão em frente, não tenham medo, vamos todos juntos levantar este país novamente, vão em frente, coragem”.

Por  Manuel Cubías – Vatican News

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