Altino do Tojal homenageado em Braga

Soube há dias, oficiosamente, que Altino do Tojal vai ser alvo de uma homenagem pública em Braga. Merece-a. Porque faz parte de um leque de autores portugueses que deram a conhecer a cidade e a região a todo o país, através de textos que têm como cenário a cidade ou concelhos vizinhos.

Como se sabe, com o passar do tempo os grandes escritores tornam-se uma espécie de património de todos e o autor de “Os Putos”, que em vida fez questão de não cultivar a hipocrisia, fugindo tantas vezes, como assisti, a cerimónias e a homenagens, é cada vez mais esse autor admirado e, estranhamente, lido. Nos últimos tempos vou sendo abordado por pessoas que sabem que nos demos bem, que se manifestam apaixonados pela sua literatura, especialmente pelos seus contos, e que confessam que só o começaram a ler depois do seu desaparecimento, em 2018. Que bom deve ser para o Altino, encontre-se onde se encontrar, saber que os seus contos não estão para sempre fechados numa estante empoeirada, mas nas mesas de cabeceira ou junto ao canto da leitura de muitas casas por aí.
Eu tenho vaidade de ter sido seu amigo e de ter contado com a sua amizade ao longo de várias décadas. Quem conheceu o Altino, sabe que um abraço seu valia todo o seu coração. Por isso sinto orgulho que numa das fotos que aqui publico me tenha posto o braço sobre os ombros, em sinal de que também gostava de mim. Na outra foto, tirada talvez 20 anos antes, estamos ambos numa escola do Alentejo interior a participar numa atividade ligada à literatura.
Tenho-me esforçado por manter viva a memória do Altino. Tenho feito o mesmo, aliás, com a memória de outros amigos que se dedicaram às Letras e a outras artes. Por isso, fiquei feliz quando soube que se preparava em Braga uma homenagem vinda de uma instituição com grande credibilidade Cultural na capital do distrito.
Em março de 1995, escrevendo sobre mais uma edição de “Os Putos”, dizia Fernando Grade quase no fim de um texto crítico de quatro laudas: “Aqui chegados, esmiuçado o que era de desfibrar na estilística, modus faciendi e intenções ético-existenciais do escritor de ‘Os Putos’, outrossim é fácil concluir acerca da injustiça que campeia em muitos casos e obras da atual literatura portuguesa; na verdade, se Altino do Tojal vê um livro seu ser distinguido e de maneira tão categórica, ao longo de décadas, pela simpatia desinteressada, mas genuína, por isso, e apreço de muitos milhares de leitores – o mesmo não se constata no referente ao entendimento de certa crítica quanto a estes contos exemplares. À publicitação de um digno nome autoral. E tal estranheza, por desonesta, cheira a esturro. Com efeito, para lá do facto de o Autor ser avesso a certo ramalhete de tiques e salamaleques que, hoje por hoje, muito norteiam a chamada vida literária, talvez não explique tudo. Há que procurar a verdade dos facto a outro nível de comportamentos: os carnívoros interesses mercantis…, os chamados jogos de bastidores…, os agressivos grupos de pressão. Num país minorca, quem luta sozinho, paga a dobrar! Mantém-se em vigor o verso do grande poeta Alexandre ó Neill que parafraseamos:
– Isto continua a ser o país da tua tia!”
Vai fazer 4 anos a 15 de julho próximo que o Altino terminou a sua estada neste Mundo, próximo da família, numa freguesia do concelho da Póvoa de Lanhoso. Naqueles que o conheciam e entendiam o seu coração, deixou muitas saudades.
Vamo-las matando, pois, sempre que se fala nele para ser alvo de uma homenagem. Porque o Altino era como nós, os cidadãos mais apaixonados, que dizia o que lhe ia no peito, apesar de no fim da vida me ter dito que perdeu com essa forma de ser centenas de amigos. Mas logo dizia, escudado naquela sua gargalhada chocalheira: “Amigos, não. Conhecidos!…”
Abraço, Antino.
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Por José Abílio Coelho
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