As partilhas no CDS – testamento adiado

O primeiro congresso do CDS em que participei foi o de Lamego, em 2018. Foi uma festa. Paulo Portas tinha deixado em herança um grupo parlamentar com 21 deputados e Assunção Cristas tinha conseguido um bom resultado em Lisboa. Naqueles dias foi ver Francisco Rodrigues dos Santos e Adolfo Mesquita Nunes a trocar elogios e abraços, Nuno Melo de mão dada com Assunção Cristas a prometer a glória nas europeias, e todos saudavam a força da JP.
Claro que houve alguns chatos que tentaram avisar que nem tudo ia bem, que a herança de Paulo Portas não era suficiente para tudo, e que era preciso mudar de caminho. Mas foram ignorados. Assunção Cristas foi aclamada e tudo parecia sorrir.
Infelizmente, as europeias primeiro, e depois as legislativas, vieram demonstrar que afinal a herança não era suficiente, e o partido entrou em crise. E o que se viu desde então é o que se vê em todas as famílias em partilhas: quando há para todos, tudo corre bem e gasta-se com fartura, quando a herança começa a escassear inicia-se a luta desesperada pelo que sobra do quinhão.
Não deixa de ser irónico ver os apoiantes da direcção atacar o portismo, tendo na direcção António Carlos Monteiro, antigo secretário-geral de Paulo Portas. Ou atacar a anterior direcção, quando Filipe Anacoreta Correia transitou sem problema de uma para outra. E como esquecer que o próprio Francisco Rodrigues dos Santos sempre afirmou Paulo Portas como modelo? E é suposto esquecermos que, na última crise do partido, Nuno Melo foi balançando entre apoiar a direcção ou apoiar Mesquita Nunes, enquanto via para onde sopravam os ventos?
A guerra que se trava no CDS não é ideológica ou doutrinária. Isso é apenas a roupagem que se tenta usar para apresentar alguma dignidade. Aquilo a que realmente estamos a assistir são umas partilhas feias, onde os herdeiros lutam desesperadamente para garantir a sua parte do que sobra da herança.
Os actuais contendentes do CDS lembram as famílias aristocráticas que, tendo dissipado toda a herança, lutam entre si para ver quem fica com o solar arruinado da família. Nenhuma das partes parece interessado em recuperar o que quer que seja, ou em aproveitar o que herdaram para refazer a fortuna. Só lhes interessa garantir que ficam com o pouco que sobrou.
Por isso, é-me bastante indiferente quem ganha esta batalha, porque o resultado é o mesmo. Ganhe quem ganhar, vai continuar a dissipar a herança que recebeu, até não sobrar mais nada.
O CDS não pode continuar a viver da herança de Paulo Portas. Há poucos políticos como ele, e nenhum deles está no CDS. O modelo Portas, sem o próprio, não funciona.
É hora de reconstruir a identidade do CDS, de voltar a ser um partido de ideias e ideais. É preciso retomar o humanismo personalista, baseado na dignidade humana, na defesa da família e do Estado útil, baseado nos príncipios da subsidiariedade e da solidariedade.
Hoje, mais do que nunca, é preciso quem defenda a liberdade individual, a liberdade para educar e a liberdade económica. Mas também quem não tenha medo de ser a voz dos mais frágeis, dos mais explorados, dos descartados da sociedade. O CDS continua a fazer falta.
É um caminho difícil e trabalhoso, mas necessário. Só um CDS com uma identidade forte e clara pode voltar a ser relevante na sociedade. Só um partido que acredita em alguma coisa terá a capacidade de gerar militância.
Infelizmente, nem Francisco Rodrigues dos Santos nem Nuno Melo parecem interessados neste caminho. Por isso, é indiferente quem irá sair vencedor nesta guerrinha de partilhas. Pedia-lhes apenas que se sentassem à mesa e resolvessem em privado quem vai enterrar o partido. Sempre nos poupavam a humilhações públicas.
Por José Seabra Duque
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